Em frente à entrada de sua casa em ruínas, uma menina se refresca com a mãe em uma grande bacia cheia de água. O calor úmido é sufocante nesta favela de Belém, cidade da Amazônia brasileira que sedia a COP30.

Não muito longe dali, Rosineide Santos, manicure de 56 anos, acredita que “o clima mudou muito” desde a sua chegada, há cerca de vinte anos, à Vila da Barca, um bairro pobre construído sobre palafitas que se erguem acima da água salobra carregando montes de lixo.

“Faz um calor intenso a partir das nove da manhã”, reclama ela.

A manicure Rosineide Santos durante entrevista à AFP em sua casa na Vila da Barca, um bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
A manicure Rosineide Santos durante entrevista à AFP em sua casa na Vila da Barca, um bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

O aquecimento global está a atingir duramente a Vila da Barca, onde vivem cerca de 7.000 pessoas.

Esta favela está localizada não muito longe do centro da cidade, ao lado de um bairro chique, e a poucos quilômetros do local onde acontece desde segunda-feira a conferência da ONU sobre o clima, em Belém, capital do estado do Pará, no norte do país.

Se a preservação da vizinha floresta amazônica é um tema-chave da COP30, “ninguém está falando em proteger aqueles de nós que vivemos na Amazônia urbana”, disse Gerson Bruno, presidente da associação de moradores da Vila da Barca, à AFP.

Gerson Bruno (d), presidente da associação de moradores da Vila da Barca, fala com um morador deste bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
Gerson Bruno (d), presidente da associação de moradores da Vila da Barca, fala com um morador deste bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

“Ninguém discute como a crise climática afeta os nossos territórios mais vulneráveis”, afirma este jovem de 35 anos.

Embora a maior floresta tropical do planeta seja o símbolo da Amazônia brasileira, mais de 75% dos seus 27 milhões de habitantes vivem em áreas urbanas, segundo dados oficiais.

Em Belém, mais da metade da população vive em favelas.

– Água encanada e esgoto –

Nestes bairros densamente povoados e muitas vezes desprovidos das infra-estruturas mais básicas, o impacto da crise climática é acentuado, particularmente pelos problemas de tratamento de água.

Moradores da Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
Moradores da Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

Na Vila da Barca, apesar de “inícios problemáticos”, segundo Gerson Bruno, os moradores conseguiram trabalho nesse sentido graças ao COP.

Em sua maioria negros e mestiços, os moradores protestaram pela primeira vez quando viram que uma estação de tratamento de águas residuais seria construída dentro de sua favela, mas para beneficiar apenas o bairro rico adjacente.

Uma mulher trabalha em frente à sua máquina de costura em sua casa na Vila da Barca, um bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
Uma mulher trabalha em frente à sua máquina de costura em sua casa na Vila da Barca, um bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

Esta mobilização, que atraiu a atenção dos meios de comunicação locais após o seu eco nas redes sociais, permitiu às autoridades finalmente iniciar os trabalhos de instalação de esgotos na Vila da Barca, ao mesmo tempo que melhorou a distribuição de água canalizada.

Poucos meses antes da COP, as famílias ainda tinham que comprar recipientes para se lavarem.

– “Quadro Terra” –

A temperatura máxima de Belém aumentou em média 1,96ºC de 1970 a 2023.

Moradores da Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
Moradores da Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

O suficiente para aumentar “a vulnerabilidade às ondas de calor e aos problemas de saúde associados, bem como a pressão sobre a infraestrutura”, segundo estudo científico recente do Centro Universitário do Estado do Pará.

Belém também é uma das metrópoles menos arborizadas do Brasil.

Um paradoxo flagrante, pois está rodeado pela enorme floresta amazônica.

O governador do Pará, Helder Barbalho, reconhece isso à AFP: “A Amazônia urbana é um desafio muito importante, são necessários mais investimentos para equilibrar soluções para a floresta e para as cidades”.

A aposentada Elizabeth Campos Serra em frente à sua casa na Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP - Mauro PIMENTEL)
A aposentada Elizabeth Campos Serra em frente à sua casa na Vila da Barca, bairro pobre construído sobre palafitas às margens do rio Guamá, em Belém, no estado do Pará, em 5 de novembro de 2025 no Brasil (AFP – Mauro PIMENTEL)

Em frente à sua casa na Vila da Barca, numa frágil passarela de madeira, Elizabeth Campos Serra, aposentada de 67 anos, sabe o que pediria ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva se pudesse conhecê-lo.

“Eu diria ao Lula para nos tirar daqui, gostaria de viver em terra firme.”

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