Água a perder de vista, campos macerados… Centenas de milhares de hectares dos pampas argentinos, o coração agrícola do país, estão congestionados ou inacessíveis há meses, por culpa de chuvas incomuns e de infraestruturas prejudicadas.

Mau cheiro de pântanos, enxames de mosquitos e sapos por toda parte: raramente os “pampas molhados”, no centro-norte do país, mereceram tanto nome como nesta primavera austral. O céu reflete-se nas vastas extensões de água no solo, mas a beleza da imagem escapa aos agricultores.

“Não tenho conseguido semear, minhas vacas ficaram magras de tanto ficar na água, onde não tenho como levar forragem para elas”, lamenta Luciano Macaroni, criador de 46 anos do bairro 9 de Julio, a 300 km de Buenos Aires.

Em toda a província de Buenos Aires, tão grande como a Itália, mais de 1,4 milhões de hectares – aproximadamente o tamanho de Ile-de-France – estão 60-100% saturados de água, segundo a Sociedad Rural, a organização argentina de campo. E o dobro está em “excedente de água”.

Em 9 de Julio, uma das áreas mais afetadas, Luciano teve que se mudar em março e se instalar na aldeia, “para que as crianças possam ir à escola”. Ele só podia ir e vir de casa a cavalo, pelos caminhos alagados que para alguns se transformaram em canais.

– Mudanças climáticas –

Desde o início de 2025, a precipitação local ultrapassou os 1.600 milímetros, quase o dobro de um ano inteiro. E a água, há semanas, não consegue evaporar.

Um campo inundado devido às fortes chuvas em 9 de Julio, na província de Buenos Aires, Argentina, em 5 de novembro de 2025. (AFP - Luis ROBAYO)
Um campo inundado devido às fortes chuvas em 9 de Julio, na província de Buenos Aires, Argentina, em 5 de novembro de 2025. (AFP – Luis ROBAYO)

A ironia é que há dois anos, a mesma região sofreu uma das piores secas de que há memória agrícola argentina, causando perdas estimadas em 20 mil milhões de dólares em exportações. A indústria agroalimentar é responsável por quase 60% das exportações.

“É claro que há questões ligadas às alterações climáticas e, fundamentalmente, a uma maior recorrência de fenómenos climáticos muito intensos”, estima Javier Rodríguez, ministro provincial do Desenvolvimento Agrícola, à AFP.

“Não estamos habituados” a este nível de precipitação, afirma a autarca de 9 de Julio, María José Gentile, também convencida de que “as alterações climáticas têm muito a ver com isso”. “Ignorar isto é não ver a realidade, não aceitar uma situação que teremos de gerir de uma forma ou de outra.”

Mas o clima não é o único a ser apontado. Para as partes interessadas locais, o atraso acumulado nas infra-estruturas, na manutenção das valas de drenagem e nas estradas de acesso é em grande parte corresponsável. E aí, a política entra em jogo.

– Dragar, drenar –

Javier Rodríguez, membro do governo provincial que se opõe ao executivo nacional, põe em causa a paralisação dos projectos públicos durante dois anos, em nome da austeridade orçamental do ultraliberal Javier Milei.

Por exemplo, o Rio Salado, um rio de 600 km que atravessa os Pampas, desempenha um papel fundamental na drenagem de terras agrícolas. “Se a dragagem não tivesse sido desacelerada em 2023, esse trecho estaria concluído e a água escoaria muito melhor”, denuncia.

A ministra da Segurança Nacional, Patrícia Bullrich, anunciou esta semana o envio de máquinas e pessoal para “desobstruir caminhos e chegar a famílias isoladas”. Mas na infra-estrutura ela repassa a responsabilidade para a província que, segundo ela, “hoje é a responsável pelas obras do Rio Salado”.

Na verdade, uma responsabilidade conjunta.

Em 9 de Julio, onde a água cobre 45% da superfície cultivável, quase não houve colheita de trigo e as sementes de soja e milho, a maior parte das culturas locais, estão paralisadas, resume Hugo Enríquez, produtor de cereais e presidente local da Sociedad Rural.

“A situação é catastrófica, a área de produção será significativamente reduzida”, prevê. E o impacto económico virá para todos: “operadores, transportadores, gestores de armazenamento, fornecedores de insumos…”

“Vamos sentir as consequências no próximo ano. Não podemos semear, não temos animais. Que diabos vamos fazer?” exclama Alejandro Vallan, agricultor de 43 anos. “Tem gente aqui que tem 60, 70 anos e salvou a vida inteira para ter suas vacas, agora as perdeu. É muito difícil se recuperar disso”.

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