
Esta molécula atua diretamente na espermatogênese. Este processo pelo qual os espermatozoides são produzidos é dividido em três etapas: primeiro, as células-tronco se diferenciam; depois, dividem-se durante a meiose para gerar células haplóides, ou seja, com uma única cópia de cada cromossomo (ao contrário de outras células do corpo que possuem duas); e, finalmente, o estágio de maturação, quando essas células se transformam em espermatozoides prontos.
Para esta nova abordagem, os pesquisadores decidiram focar o processo na segunda etapa, a da meiose. Se atacassem o processo antecipadamente, corria o risco de afetar de forma duradoura as células-tronco, causando infertilidade. E se atacassem tarde demais, alguns espermatozoides poderiam escapar e a contracepção não seria eficaz.
Bloquear a meiose para interromper a espermatogênese
A meiose foi, portanto, a janela de oportunidade perfeita. Para interrompê-lo, os pesquisadores direcionaram uma proteína específica para essas células, chamada BRDT. Esta proteína é um regulador da transcrição desta etapa, ou seja, ativa a expressão dos genes necessários para este processo de divisão celular.
Para bloquear o BRDT, os pesquisadores usaram uma molécula chamada JQ1, conhecida por seu poder inibitório sobre essa proteína. Eles testaram-no com injeções diárias de JQ1 durante três semanas em ratos. Resultado: o número de espermatozóides maduros caiu consideravelmente, mostrando que o bloqueio do BRDT foi suficiente para interromper a espermatogênese. No entanto, esta interrupção foi temporária e a contagem de espermatozoides voltou ao normal seis semanas após o término do tratamento. E esse efeito foi específico das células germinativas (que se transformam em espermatozoides) e não afetou outras células nos testículos ou em outras partes do corpo dos ratos.
A interrupção é temporária e reversível
Análises posteriores mostraram então que esta inibição da produção de espermatozoides era de fato devida a um bloqueio da expressão de genes normalmente ativados pelo BRDT. Seis semanas após o tratamento, a ativação destes genes voltou ao normal, um sinal de que a interrupção da espermatogénese é reversível e não teria efeitos duradouros na fertilidade.
No entanto, a expressão de alguns genes permaneceu anormal por mais tempo, incluindo aqueles necessários para a produção de energia celular e a motilidade dos espermatozoides. Para avaliar se estas perturbações poderiam ter efeitos a longo prazo, os investigadores analisaram a fertilidade destes ratos, bem como a saúde das suas crias. Os ratos tratados demoraram mais para produzir descendentes e, quando o fizeram, o número de filhotes foi menor do que os machos não tratados, mas eram saudáveis. No entanto, essas anomalias não foram observadas nas ninhadas subsequentes.
A interrupção da espermatogénese é, portanto, temporária após um tratamento de seis semanas. Mas e um tratamento mais longo? Porque, se um dia esta abordagem se tornasse um contraceptivo para os homens, provavelmente o tratamento seria muito longo, como é o caso das pílulas anticoncepcionais para as mulheres. Os autores enfatizam a necessidade de explorar plenamente esta possibilidade antes de poder testar esta abordagem em humanos. Este novo caminho é encorajador, mas ainda faltam muitos passos antes que possa se tornar uma realidade para os homens.