O câncer de coração é uma doença extremamente rara. Com menos de 2 pessoas em 100.000 por ano, estes tumores cardíacos primários representam uma frequência de apenas 0,0017% a 0,028% de todos os cancros. Ao contrário de outros órgãos onde os tumores se desenvolvem com mais frequência, como os pulmões, a mama, o cólon ou mesmo a próstata, é quase impossível que as células tumorais se multipliquem no coração. Durante muito tempo, as pesquisas presumiram que os movimentos incessantes desse órgão dificultavam o desenvolvimento dos cânceres, sem entender bem o porquê. Pela primeira vez, um estudo publicado em Ciência conseguimos encontrar o mecanismo chave que protege nosso coração.

Se um tumor estiver realmente crescendo no coração, então é uma metástase de câncer em outra parte do corpo.“, explica a professora Serena Zacchigna, especializada em biologia cardiovascular pela Universidade de Trieste, na Itália, e autora deste trabalho. Para entender por que nenhum câncer consegue “nascer“no coração, sua equipe tentou um estudo experimental: comparando corações submetidos a carga mecânica normal e corações que não sofreriam nenhum movimento. Em um modelo de camundongo, uma injeção de células cancerígenas humanas mostrou que em corações sem movimento, a proliferação tumoral é muito maior do que em corações que normalmente bombeiam sangue. Em 14 dias, as células cancerígenas invadem quase completamente esses corações, em comparação com apenas 20% em corações normais.

Nesprin-2, uma proteína chave

Restava entender por qual mecanismo as células tumorais são interrompidas. “À primeira vista, pode-se pensar que os tumores simplesmente não conseguem proliferar no coração devido ao movimento físico constante que os “perturbaria”. Mas identificámos um processo biológico muito mais complexo. Não se trata apenas de um movimento em si, mas de como as células percebem esse movimento e respondem a ele.“, explica o professor Zacchigna. No centro dessa reação biológica está o Nesprin-2, uma proteína presente nos músculos, geralmente destinada a manter a estrutura interna das células e regular sua atividade genética. Mas no coração, o Nesprin-2 também atua como mediador. Ao sentir o movimento causado pelas batidas, gera modificações genéticas que impedem o desenvolvimento das células tumorais: todos os genes associados à proliferação tumoral são inibidos. E o oposto também é encontrado nos ratos. Quando a ação do Nesprin-2 é parado, os tumores crescem novamente.

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Quando as batidas modificam a genética

Mas por que o Nesprin-2 age assim? “Provavelmente porque o coração é um dos órgãos mecanicamente mais ativos do corpo. No coração, as células estão constantemente expostas a forças fortes e rítmicas. Eles exigem, portanto, um sistema capaz de detectar e responder a essas forças. Quanto ao efeito antitumoral que observamos, não se trata, sem dúvida, de um mecanismo adquirido ao longo do tempo para evitar o cancro. Provavelmente um efeito colateral positivo ligado ao manejo do estresse mecânico no nível celular.

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É difícil imaginar como tal descoberta poderia contribuir para a luta contra o cancro. Mesmo assim, a equipe do Laboratório de Biologia Cardiovascular de Trieste já tem uma ideia própria. “Colaboramos com engenheiros para desenvolver dispositivos médicos capazes de reproduzir estimulação mecânica semelhante à do coração. A ideia seria aplicá-lo nos tumores, porque não na pele, para retardar o seu crescimento.” Ao mesmo tempo, a equipa está a testar fármacos epigenéticos capazes de reproduzir os mesmos efeitos das forças mecânicas, remodelando a cromatina das células, ou seja, a forma como o ADN se organiza e se expressa no núcleo das células. Esta investigação, no entanto, permanece numa fase experimental muito inicial. Entretanto, o coração acaba de provar mais uma vez que definitivamente não é um órgão como qualquer outro.

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