Cabelo ruivo mais frequente, pele mais clara, menor propensão para a calvície de padrão masculino, tipo sanguíneo mais robusto contra infecções microbianas, risco reduzido de artrite reumatóide… estas são algumas das características mantidas pela selecção natural, ao longo dos últimos dezoito mil anos, entre a população humana na Europa e no Médio Oriente. Durante este período, a “seleção direcional” tem sido muito mais ativa do que se pensava anteriormente na formação dos nossos genomas.
Essas lições foram extraídas de um grande estudo de 15.836 genomas antigos, liderado por David Reich, da Universidade de Harvard, e publicado na quarta-feira, 15 de abril, em Natureza. Análises anteriores de genomas antigos revelaram apenas algumas mutações genéticas colocadas sob a influência da seleção natural. O novo estudo identifica 479 versões de genes – falamos de alelos – que foram objeto de forte seleção, positiva ou negativa, durante o período considerado. Mas ela estima que até 2% das mudanças na frequência dos alelos poderiam ser impulsionadas pela seleção natural.
O estudo é em grande parte de natureza estatística: consistiu em identificar quais mutações foram retidas ou rejeitadas ao longo de gerações, em uma frequência superior à média das variações que ocorrem aleatoriamente em nosso DNA. Ali Akbari, primeiro autor do estudo, desenvolveu métodos computacionais para isolar esses sinais de seleção e distingui-los de outras causas de variação na frequência alélica, como migrações humanas, mistura populacional e flutuações genéticas aleatórias que ocorrem em pequenas populações.
O artigo publicado em Natureza apresenta uma galeria de 36 alelos de“interesse especial”. Lá encontramos o CCR5-Δ32, que confere resistência completa ao vírus da AIDS em pessoas portadoras de duas cópias. Pensava-se que teria surgido na Idade Média porque teria oferecido proteção contra a Peste Negra, antes de se perceber que era muito mais antigo. Reich e seus colegas confirmam que surgiu entre seis mil e dois mil anos atrás, numa época em que a bactéria Yersinia pestis tornou-se endêmico. Por outro lado, a resistência à peste não explica o aumento e depois o declínio na frequência de um alelo que predispõe à hemocromatose, à absorção excessiva de ferro, como alguns supunham.
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