Claude Lelouch relembra a época em que Annie Girardot pediu para deixar o set de seu filme “Les Misérables”, o que a levou a apresentar a atuação que lhe permitiu ganhar um César. De volta a esta anedota incrível.
Em 1995, Claude Lelouch adaptou Os Miseráveis de Victor Hugo, situando-o durante a Segunda Guerra Mundial. O elenco do filme reuniu grandes nomes como Jean-Paul Belmondo e Annie Girardot no Jura, onde aconteceram as filmagens.
Então chegou o dia Annie Girardot filmar uma cena intensa ao lado de Michel Boujenah, sequência em que sua personagem, Françoise Thénardier, propõe a André Ziman, um refugiado judeu, um relacionamento íntimo que ele recusa. A sua reação, depois a expressão das razões de Françoise, dão toda a força a este momento.
No microfone ARTE no ano passado, Claude Lelouch compartilhou uma lembrança memorável: na manhã da filmagem desta cena, Annie Girardot admite que não está com disposição e pergunta se pode voltar a Paris, na esperança de adiar a cena para mais tarde.
“De manhã ela vem me ver e me diz: ‘Escute, Claude, hoje quero fazer tudo menos filme. Minha mãe está doente, meu namorado está me traindo, minha filha está fazendo besteiras, estou com cheque especial no banco, não estou com disposição, você pode me arrumar um carro em Paris, para eu voltar e filmar essa cena em dois dias, seja gentil, me faça esse favor, eu tenho que fazer.’”
Comovido com sua condição, Lelouch aceita, mas ainda sugere começar com um take: “‘Olha, vou encontrar um carro para você, mas enquanto isso, vamos dar uma olhada.’”, ele disse a ele.
Canal+ / Les Filmes 13 / TF1
Foi esta fotografia, tirada num momento de tensão e pressa, que acabou por ser a melhor: “E é porque naquele dia ela teve todos os problemas do mundo que ela nunca esteve tão bem. Ela estava com tanta pressa para ir embora que disse para si mesma: ‘Ele tem que me mandar de volta para Paris desde a primeira tomada.’”
Lelouch acrescenta que às vezes é a própria vida, com seus altos e baixos, que dirige melhor a atuação de um ator do que qualquer diretor.
“Entendi naquele dia como o bom ou o mau humor são fotogênicos. (…) E aí, o grande diretor de atores, não sou eu, é a vida. Naquele momento, senti imediatamente que ela seria extraordinária. Porque ela estava com pressa de sair e isso serviu ao propósito. (…)”
Redescubra a cena em questão abaixo:
A cena de César
Ao final dessa primeira tomada, toda a equipe fica chateada, alguns até chorando. Annie Girardotpor sua vez, sente-se aliviada por ter deixado temporariamente de lado suas preocupações. Quando Claude Lelouch pergunta se ela quer fazer outro take, ela aceita, mas os seguintes, mais elaborados, não captam a mesma intensidade.
“No final do take todos aplaudiram”, revelou Claude Lelouch. “As pessoas estavam chorando. Ela estava feliz, tinha esquecido seus problemas, ela me disse: ‘Você quer que eu faça outro para você?’ Eu respondi: ‘Sim, claro’, e o segundo foi obviamente menos bom, porque depois começámos a jogar.”
Este cenário forte contribuiu largamente para a conquista Annie Girardot o César de Melhor Papel Coadjuvante. O seu discurso comovente permanece gravado nas memórias, assim como a reação do seu amigo Michel Serrault naquela noite.
Esta colaboração com Annie Girardot não foi a primeira vez para Claude Lelouch. Eles já haviam trabalhado juntos em vários filmes, incluindo A Man I Like, Live to Live e There Are Days… and Moons, bem como em uma participação especial em Life, Love, Death.
Les Misérables de Claude Lelouch pode ser visto novamente em streaming no Canal+.