SSe eu ganhasse um César, digamos por todo o meu trabalho, teria que sacrificar o discurso de agradecimento “de todos aqueles sem os quais”. Eu pratico, penso nisso desde criança, repetindo o texto in petto. Já fiz isso dezenas de vezes. Invariavelmente, agradeço aos personagens recorrentes na minha vida, aos meus pais, à minha família, aos meus filhos, ao meu amante. Desde o acidente vascular cerebral, a lista de demitidos cresceu e se solidificou. Sem eles, eu não teria suportado a provação de oito meses de hospitalização.

Lembro-me dos sorrisos e do carinho, da ternura, dos olhares emocionados e compassivos, dos presentes gravados no momento; tratava-se de sobreviver, de continuar.

Penso no brilho do sorriso de Habib, no lenço de lã de alpaca argentina oferecido por Florent, no sorvete de quarta-feira à tarde de Cécile, no jantar preparado e preparado como um chef por Emmanuelle, nas piadas ternas de Alex, no sino de metal trazido da Índia por Rose, no beijo comovente dado por Nicolas, uma noite antes de sua partida.

Penso em todos os sinais de carinho recebidos, como tantos “aguenta firme, vale a pena viver novamente, estaremos juntos”. Que sorte! Uma ilha de veias no meio do desastre, no “nada voltará a ser igual”.

Nicolas, meu marido, nomeou-se chefe do protocolo: planejou e organizou a agenda da visita. A maioria dos meus amigos vinha me ver regularmente, medindo em cada reunião o progresso que eu estava fazendo na reabilitação. Assim como a graduação métrica que marca o piso do corredor de fisioterapia (uma linha para cada metro percorrido pelos retornados ambulantes), permitiram-me medir o andamento do trabalho realizado. Como não me viam diariamente, eram excelentes indicadores do meu progresso. Procurei também nos seus olhares a evolução da aceitabilidade da minha condição: não foi fácil ver-me diminuído, alguns tinham lágrimas nos olhos ou não sabiam como reagir à deficiência.

Você ainda tem 52,99% deste artigo para ler. O restante é reservado aos assinantes.

Fonte

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *