Numa fábrica chinesa, um braço robótico manobra um veículo autónomo parcialmente montado, enquanto os trabalhadores ajustam as suas câmaras. Um símbolo da revolução que automatiza passo a passo até as PME do gigante industrial.
A China é o principal mercado mundial de robôs industriais e as autoridades estão a injetar milhares de milhões de euros na robótica e na inteligência artificial (IA) para reforçar esta tendência.
As primeiras fábricas quase sem presença humana já estão em funcionamento.

Esta automatização levanta desafios em termos de potenciais perdas de empregos. Mas também o custo da transição para as pequenas empresas.
Para muitos, a solução está num modelo híbrido, automação parcial, explicam especialistas e gestores de fábrica à AFP.
Na fábrica de automóveis de Yancheng, 300 quilómetros a norte de Xangai, o diretor Liu Jingyao sublinha que a presença humana continua a ser essencial, inclusive nas linhas de produção mais avançadas.
“Para muitas decisões” e para “certos gestos técnicos”, “ainda precisamos de humanos”, diz Liu, cuja empresa, Neolix, fabrica pequenos veículos utilitários autónomos para o transporte de pacotes na cidade.

Logo ao lado, veículos sem motorista aceleram por uma pista de testes cheia de obstáculos, como poças de água ou pequenas pontes.
Numa sala adjacente, os trabalhadores montam as câmeras e os chips eletrônicos, os verdadeiros cérebros dos carros.
A automação visa “acima de tudo ajudar os humanos, aliviar a sua carga de trabalho, não substituí-los”, sublinha Liu Jingyao.
– “Exclusão digital” –
Mas a utilização crescente da IA na indústria na China, incentivada pelas autoridades, já torna possível a automatização total em muitos setores, afirma Ni Jun, especialista em engenharia mecânica da Universidade Shanghai Jiaotong.

A gigante tecnológica Xiaomi, que fabrica produtos eletrónicos, opera uma fábrica onde braços robóticos e sensores podem fabricar smartphones sem intervenção humana.
Uma “lacuna digital” está naturalmente a aumentar entre os grandes grupos, capazes de investir maciçamente na modernização, e as PME que lutam para acompanhar o ritmo, observa Ni Jun.
Pequenas fábricas, como a Far East Precision Printing de Zhu Yefeng, não podem se permitir a automação total.

Localizada perto de Xangai, esta gráfica emprega algumas dezenas de pessoas. Os trabalhadores inserem instruções manualmente em pastas e operam máquinas que imprimem etiquetas.
Até dois anos atrás, a empresa monitorava as tarefas usando papel e caneta. Isso exigia que os gerentes percorressem a fábrica para transmitir informações sobre pedidos.
“Foi um caos total”, resume Zhu Yefeng.
Desde então, a empresa tem usado um software que permite aos funcionários ler códigos QR para alimentar um sistema de rastreamento interno.
Em uma tela, Zhu Yefeng pode consultar tabelas detalhando o andamento de cada pedido e a produtividade de cada funcionário.
– E emprego? –
“Já é um primeiro passo”, explica. “Iremos avançar para tecnologias de automação ainda mais avançadas. Esta é a única forma de atrair encomendas maiores de grandes clientes.”
Mas falta dinheiro.
“Somos uma pequena empresa. Não podemos arcar com certas despesas”, observa o Sr. Zhu.

De acordo com Jacob Gunter, analista do Mercator Institute for China Studies, com sede em Berlim, a automação em grande escala corre o risco de levar à perda de empregos.
“As empresas ficarão felizes em reduzir a sua força de trabalho (…) Mas o governo não vai gostar. Vai estar sob grande pressão para resolver esta situação”, afirma.
O desejo de Pequim de desenvolver massivamente a robótica industrial “irá colidir com o imperativo de manter um elevado nível de emprego, num mercado já muito tenso”, observa.
Os fabricantes terão de encontrar um equilíbrio “entre viabilidade técnica, responsabilidade social e necessidade económica”, resume Ni Jun, da Universidade Jiaotong.
Para Zhou Yuxiang, chefe da Black Lake Technologies, start-up que produz o software usado na fábrica de Zhu, os locais de produção provavelmente permanecerão “híbridos”.
“Pergunte a qualquer patrão” se uma fábrica sem seres humanos “é um objetivo em si, a resposta será não”, sublinha.
“O verdadeiro objetivo continua sendo otimizar a produção, entregar o que os clientes desejam e ganhar dinheiro.”