As energias renováveis estão a ser implementadas globalmente mais rapidamente do que os combustíveis fósseis, apesar das mudanças políticas nos Estados Unidos, indicou quarta-feira a Agência Internacional de Energia (AIE) que, no seu cenário intermédio, também prevê que a procura de petróleo “se estabilize por volta de 2030”.
As energias renováveis, impulsionadas pela energia solar fotovoltaica, estão a ver a sua procura crescer “mais rapidamente do que qualquer outra grande fonte de energia, em todos os cenários” apresentado pela AIE no seu relatório anual sobre as Perspectivas Energéticas Mundiais (WEO 2025).
Neste relatório, aguardado com grande expectativa pelos decisores, publicado durante a realização da COP30 em Belém, a AIE apresenta três cenários sobre o futuro da energia no mundo: um baseado nas políticas atuais dos países, outro incluindo as medidas a adotar se o mundo quiser alcançar a neutralidade carbónica em 2050, e um cenário intermédio incluindo as medidas que os Estados já anunciaram.
Neste cenário mediano, os Estados Unidos, devido às mudanças políticas anunciadas, têm 35% menos capacidade renovável em 2035 em comparação com as previsões do relatório de 2024, “mas a nível global as energias renováveis continuam a expandir-se rapidamente”.
A China continua a ser o mercado líder – e o principal fabricante – garantindo 45 a 60% de implantação nos próximos dez anos, quaisquer que sejam os cenários previstos.
Na partilha de energia, porém, os caminhos divergem: no cenário intermédio, a procura de carvão atinge um pico e o petróleo estabiliza “por volta de 2030”. Por outro lado, o gás continua a crescer durante a década de 2030, contrariando as previsões anteriores, novamente devido à nova política americana e também à redução dos preços.
Anteriormente, há dois anos, a AIE tinha mencionado um pico na procura de todos os fósseis (petróleo, carvão, gás) na década, contrariando as previsões da indústria do petróleo e do gás.
No cenário mais conservador apresentado quarta-feira, aquele baseado nas políticas actuais, a procura de carvão começa a diminuir antes do final desta década, mas a procura de petróleo e gás continua a crescer até 2050.
Para esta edição, a AIE ressuscitou este cenário, que abandonou em 2020 no contexto de um impulso global rumo à transição energética motivado por questões climáticas e de soberania.
Para Rachel Cleetus, da Union of Concerned Scientists, entrevistada em Belém, onde se realiza a conferência internacional sobre o clima COP30, “não é representativa da realidade da aceleração (da transição) no mundo, as suas motivações são políticas”.
– “Dois assuntos críticos” –
Subsidiária da OCDE, a Agência está hoje na mira da administração Trump, muito cética em termos de petróleo e clima.
“Reformaremos o funcionamento da AIE ou retirar-nos-emos”, advertiu o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, em julho, numa entrevista à Bloomberg.

A instituição, criada em 1974 para ajudar os países ricos a lidar com o choque do petróleo, produziu cenários desde a década de 2020 que descrevem um declínio nos combustíveis fósseis e modelou o caminho a seguir para alcançar a neutralidade carbónica necessária para abrandar o aquecimento até 2050.
Para este novo relatório altamente escrutinado, a AIE especifica que as três vias exploradas “não são previsões”: “não existe um cenário único em termos do futuro da energia”.
Estes três “cenários ilustram os principais pontos de decisão que estão por vir e fornecem um quadro para a discussão baseada em números, sobre como avançar”, sublinha o diretor da Agência, Fatih Birol, num comunicado de imprensa.
Mas se a segurança energética é a preocupação central de muitos governos, “as suas respostas devem ter em consideração as sinergias e compromissos que podem surgir de outros objectivos – acessibilidade, competitividade, alterações climáticas”, acrescenta.
O relatório, que apela à cooperação e aos esforços concertados, aborda muitas questões: o boom na procura de energia e, em particular, o aumento da electricidade, os desafios do fornecimento de metais críticos…
E, sobretudo, em “dois temas críticos, o mundo está aquém dos objetivos que se propôs, insiste: o acesso universal à energia e as alterações climáticas”, observa a AIE.
Cerca de 730 milhões de humanos vivem sem eletricidade.
Quanto ao clima, os três cenários levarão o mundo a ultrapassar os 1,5°C de aquecimento, o que anuncia grandes impactos. Só o cenário de neutralidade carbónica permitiria, a longo prazo, regressar abaixo deste limiar, sublinha a AIE, que salienta que 2024 foi o ano mais quente registado.
Entretanto, o setor energético “terá de se preparar para os riscos gerados”, nomeadamente pelo aumento das temperaturas. Segundo a AIE, mais de 200 milhões de lares terão sofrido avarias relacionadas com infraestruturas em 2023, com 85% dos incidentes em linhas e redes.