Esquecido no seu lançamento, “Beowulf, a Lenda Viking” revela, no entanto, um lado pouco conhecido de Gerard Butler: um herói mais humano, numa releitura ousada e confusa de um mito fundador. Volte a este filme esquecido.
Muito antes de se tornar o emblemático rei espartano de 300 ou de aparecer em outras produções espetaculares, Gerard Butler já havia explorado um registro muito diferente. Em meados dos anos 2000, o ator se aventurou em um universo medieval tingido de fantasia com um projeto que hoje passou despercebido pelo radar.
Lançado em 2005, Beowulf, the Viking Legend (também conhecido pelo título original Beowulf e Grendel), dirigido por Sturla Gunnarsson, é inspirado no famoso poema anglo-saxão Beowulf. No entanto, ao contrário de outras adaptações mais conhecidas – nomeadamente aquela dirigida por Robert Zemeckis dois anos depois, The Legend of Beowulf – esta versão com Gerard Mordomo nunca realmente causou uma boa impressão. E, no entanto, duas décadas depois, merece mais atenção.
Uma adaptação que abala os códigos do mito
Onde muitas histórias heróicas favorecem o espetacular, este filme adota uma abordagem mais íntima e matizada. Certamente retoma as linhas principais da obra original, mas também se afasta dela de forma significativa. Estas liberdades narrativas podem surpreender e até confundir os puristas: a ausência de certos elementos emblemáticos ou a forma como a personagem de Grendel é tratada são bons exemplos. Mas para um espectador não familiarizado com o texto original, essa releitura oferece uma experiência diferente, focada mais nas emoções e motivações dos personagens.
A história se passa na Dinamarca, no século VI. O rei Hrothgar busca a ajuda de Beowulf, um guerreiro conhecido por ser invencível, para acabar com os abusos de um troll chamado Grendel. Mas muito rapidamente a situação torna-se mais complexa: a fronteira entre o monstro e o humano torna-se confusa e certas verdades até então escondidas começam a emergir.
Entretenimento de fim de jogo
Nesta interpretação, Butler incorpora um Beowulf menos monolítico do que nas histórias tradicionais. O seu desejo de vingança é contrabalançado por dúvidas, nomeadamente através da sua relação com Selma, uma misteriosa figura local. O filme oferece assim uma leitura onde herói e criatura partilham motivações semelhantes – honra, família, justiça – confundindo os referenciais habituais. Por sua vez, Hrothgar já não é simplesmente um governante nobre: ele também parece frágil, marcado pelos seus próprios medos.
Se esta tomada de liberdades pode ter prejudicado a sua recepção como adaptação fiel, também constitui um dos aspectos mais interessantes do filme. Ao libertar-se do material original, Beowulf, a lenda Viking questiona a construção de mitos e convida todos a pensarem na versão dos fatos em que escolhem acreditar. O resultado é imperfeito, mas longe de ser desprovido de interesse, nomeadamente graças a desempenhos sólidos, em particular os de Gerard Mordomo e Stellan Skarsgard.
Entretenimento de fim de jogo
Quando a filmagem se torna uma provação épica
Outro elemento explica em parte porque o filme permaneceu nas sombras: o seu próprio documentário de “making of”. Intitulado Wrath of Gods, este último relembra as condições de filmagem particularmente cansativas na Islândia. Entre o mau tempo e dificuldades logísticas, a equipa teve de enfrentar inúmeros obstáculos, o que também confere ao filme uma autenticidade visual inegável.
Ironicamente, este documentário teve uma recepção muito mais entusiástica do que o próprio longa-metragem, conquistando diversos prêmios e elogiando o trabalho de Jon Einarsson Gustafsson, que conseguiu capturar intensamente os agitados bastidores da produção.
Olhando para trás, Beowulf, a lenda Viking surge como uma obra ousada, imperfeita, mas singular, que oferece uma visão diferente de um mito fundador. Permanecendo discreto após a sua libertação, ele continua hoje a buscar reconhecimento que nunca obteve realmente.
Agora cabe a cada um formar a sua opinião: o filme está disponível no Prime Video.
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