
É uma palavra que achamos que conhecemos bem. Doze letras irradiando das profundezas dos tempos, promessas de pirâmides e cidades perdidas, templos e palácios, afrescos e mistérios… Experimente. Feche os olhos e pense nos maias. O que você vê?…
Mas uma palavra que, mal pronunciada, nos escapa. Ninguém contestará que esses mesmos maias criaram a civilização; mas podemos dizer o mesmo dos Nuraghes, um povo sem escrita, que, no entanto, cobriu de monumentos a Sardenha desde a Idade do Bronze? Ou o Grande Zimbabué, um poderoso império Bantu do qual apenas resta um muro de pedra na capital? A dúvida surgiu na hora de escolher um título para esta edição. Como é chamada a “civilização”?
Histórias de trocas e migrações
Recorremos a Jean-Paul Demoule, um eminente arqueólogo que contribuiu para a fundação do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva (Inrap) e foi o seu primeiro presidente. Se os investigadores utilizam mais prontamente os termos “cultura” ou “sociedade”, admite, não há contra-indicação para a sua utilização, desde que não se restrinja a sociedades complexas e hierárquicas. Foi com este passe que iniciamos a nossa digressão mundial.
Dos Celtas aos Sogdianos, passando pelos Tainos, existe a mesma evidência: estas civilizações não são entidades isoladas no espaço ou no tempo. Humanos, bens e ideias viajaram de um império para outro ao longo das Rotas da Seda. O budismo viajou para a China, encontrando os deuses gregos que chegaram às portas da Índia seguindo os passos de Alexandre, o Grande. No Peru, numa das cidades mais antigas da América, flautas de osso de pelicano decoradas com macacos e condores falam dos laços estreitos que uniram os povos dos Andes, do Pacífico e da Amazónia, há 5.000 anos. São inúmeras as histórias que nos contam sobre trocas e migrações, mestiçagens e integrações, constantes da humanidade.
Uma homenagem aos arqueólogos
Dos Celtas aos Sogdianos, passando pelos Tainos, existe a mesma evidência: estas civilizações não são entidades isoladas no espaço ou no tempo. Humanos, bens e ideias viajaram de um império para outro ao longo das Rotas da Seda. O budismo viajou para a China, encontrando os deuses gregos que chegaram às portas da Índia seguindo os passos de Alexandre, o Grande. No Peru, numa das cidades mais antigas da América, flautas de osso de pelicano decoradas com macacos e condores falam dos laços estreitos que uniram os povos dos Andes, do Pacífico e da Amazónia, há 5.000 anos. São inúmeras as histórias que nos contam sobre trocas e migrações, mestiçagens e integrações, constantes da humanidade.
A outra lição desta questão é que uma civilização nunca desaparece completamente. Certamente nem todos deixam para trás uma Acrópole ou Machu Picchu, mas a maioria dos povos pelo menos desiste… dos seus genes. Veja os Yamnayas. 40% da população mundial carrega DNA destes nômades das estepes, que se acredita serem as origens das línguas indo-europeias. Daí até à imaginação de hordas guerreiras a varrer a Europa, ou mesmo de uma “grande substituição” das populações locais, há um passo que alguns não hesitam em dar. Talvez não tenham lido as últimas obras paleogenéticas: os Yamnayas começaram antes da domesticação do cavalo! Como cavaleiros ferozes, aqui estão pequenos grupos de indivíduos de pele escura que viajam em carroças puxadas por bois e muitos dos quais – é uma hipótese – teriam se unido às mulheres que encontraram pelo caminho.
Esta edição presta homenagem aos arqueólogos. Porque a sua paixão obstinada permite-nos lançar melhor luz sobre o progresso do mundo. Eles têm o poder de fazer os mortos falarem como as paisagens. Que alegria viajar no tempo na companhia deles! E como é revigorante ouvir estas histórias baseadas em vestígios rigorosamente analisados enquanto a musiquinha das verdades alternativas e o discurso adulterado dos romances nacionais surgem de quase todo o lado.