Imaginamos prontamente as origens como momentos de simplicidade. Um mundo ainda lento, vago, hesitante. Um caos aguardando organização. Mas ao ler este número excepcional – mais de 70 páginas dedicadas aos começos – surge outra imagem: a de um universo onde a complexidade surge cedo. Muito cedo. Apenas algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang, as primeiras estrelas iluminaram a escuridão cósmica (p. 22). Na Terra, Luca, o ancestral comum de toda a vida atual, pode ter surgido logo após o impacto gigante que deu origem à Lua (p. 27). E ele já estava equipado com um metabolismo complexo. Até o sono, que se acredita estar ligado ao cérebro, já existia antes dele: nos pólipos simples, ainda hoje se manifesta (p. 62).

Reconheça que nada é realmente simples

Longe de uma marcha linear rumo à organização, a evolução explora, ramifica-se, refaz seus passos. Várias espécies tentaram conquistar a terra firme (p. 50), e a própria humanidade é apenas um ramo tardio de um arbusto denso, onde a coabitação, a hibridização e o desaparecimento se misturam (p. 31). Mesmo a ciência moderna, muitas vezes associada a uma ruptura fundadora no século XVII, é o resultado de um longo amadurecimento, como nos explica o historiador Pascal Duris (p. 35).

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Esta edição especial, portanto, não fala apenas do início, mas de como, desde o início, a complexidade já existia. Como um espelho erguido no nosso tempo: um espelho onde a simplificação muitas vezes ameaça esconder a riqueza do mundo. Compreender as origens significa reconhecer que nada é realmente simples. E isso é tanto melhor.

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