PPara uma petrolífera, apresentar resultados financeiros em meio a um choque energético é um exercício delicado. Devemos tranquilizar os accionistas, mostrando que a empresa está a sair-se melhor do que os seus concorrentes, sem se vangloriar disso, sob o risco de chocar os consumidores estrangulados pela subida dos preços.

Ao anunciar um lucro líquido de 51% no primeiro trimestre, para 5,8 mil milhões de euros, a TotalEnergies satisfez claramente os líderes. Mas será ainda mais difícil para o país escapar ao debate sobre a tributação dos seus lucros, uma vez que os efeitos da crise energética estão apenas a começar.

Da esquerda à extrema direita, multiplicam-se propostas para envolver as multinacionais que lucram com o aumento dos preços. O governo está procrastinando. Sébastien Lecornu recusa o “ataque total” e apela ao grupo para que redistribua voluntariamente parte dos seus lucros sob a forma de descontos na bomba. O primeiro-ministro jura que “não feche nenhuma porta”…sem realmente abrir um.

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Antes de legislar com urgência, vale a pena recordar algumas realidades. A tributação nacional dos “superlucros” corre o risco de ser economicamente decepcionante. As medidas adotadas durante a crise energética anterior, em 2023, renderam muito menos do que o previsto. A razão é simples: a maior parte dos lucros da TotalEnergies não é obtida em território francês. Além disso, como mostra um estudo do Observatório Fiscal Internacional, as multinacionais tendem, em tempos de crise, a localizar uma parte crescente dos seus lucros em jurisdições com impostos baixos. Atuar nesta área exige uma coordenação internacional que, nesta fase, não verá a luz do dia a curto prazo.

Numa estação de serviço da TotalEnergies, em Paris, 25 de março de 2026.

Temos também de admitir que ter um campeão nacional, capaz de negociar contratos de fornecimento de longo prazo, investir em capacidades de refinação e influenciar o equilíbrio geopolítico da energia, constitui um verdadeiro activo estratégico, que não pode ser sacrificado simplesmente pela postura política.

A questão não é tanto se tributamos, mas onde e como. No início de Abril, a Alemanha, a Áustria, a Espanha, a Itália e Portugal solicitaram à Comissão Europeia uma taxa coordenada sobre os grupos de energia. A França faria bem em aderir a esta iniciativa sem demora. Estes cinco países, governados por maiorias com sensibilidades diversas, compreenderam que para um fenómeno global, só uma resposta continental é apropriada. Um imposto europeu permitiria evitar distorções da concorrência entre os Estados-Membros, limitar a optimização fiscal transnacional e enviar uma mensagem clara: aqueles que beneficiam das consequências da guerra devem fazer a sua parte.

Se a crise continuar, recusar-se a debater a tributação tornar-se-á politicamente insustentável à escala nacional. É melhor influenciar a criação de um sistema europeu equilibrado do que ver-se forçado a improvisar sob a pressão de uma Assembleia Nacional sem maioria. As sociedades democráticas têm dificuldade em tolerar desigualdades que são demasiado visíveis: por um lado, os accionistas que enriquecem num contexto de guerra, por outro, os automobilistas que lutam para reabastecer. É nessas tensões que as demagogias prosperam. Melhor um sistema fiscal imperfeito, mas legítimo, do que permitir que a indignação floresça com resultados imprevisíveis.

O mundo

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