Sabemos que um desequilíbrio de microrganismos na microbiota, o que chamamos de “disbiose”, pode levar a problemas de saúde significativos, incluindo o cancro. Esta ligação entre microrganismos e cancro poderia explicar, por exemplo, porque é que as fibras – que modulam positivamente o equilíbrio da microbiota – são um factor de protecção, enquanto a carne vermelha – que o modula negativamente – é um factor de risco.
Uma abordagem totalmente inovadora
A maioria das pesquisas sobre o papel das bactérias da microbiota na proteção contra o câncer tem se concentrado até agora em métodos indiretos, como modulação transplante de microbiota ou microbiota fecal. Mas investigadores do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia do Japão (JAIST) decidiram adoptar uma abordagem radicalmente diferente e, para dizer o mínimo, inovadora!
Eles isolaram e cultivaram 45 cepas bacterianas do trato digestivo deanfíbios e de répteis : sapos arbóreo Japonês (Dryófitas japonicus), tritões Japonês de barriga vermelha (Cynops pirrogaster) e lagartos japoneses (Takydromus tacidromoides).
Esses bactérias foram então administrados por via intravenosa a modelos animais de câncer colorretal (camundongos). Depois de algumas semanas, os pesquisadores observaram o estado do tumores.
Superpoderes
Os resultados, publicados na revista internacional Micróbios intestinaissão mais que incríveis! Eles mostram que nove cepas bacterianas têm efeitos antitumorais significativos e que uma dessas bactérias, chamada Ewingella americanaapresenta excepcional eficácia terapêutica.
Este é de facto capaz de eliminar completamente o tumor, com uma taxa de resposta completa (CR) de 100%, correspondendo ao desaparecimento total de todos os sinais de cancro.
Então, Ewingella americana seria mais eficaz do que os tratamentos padrão atuais, incluindo inibidores do ponto de controle imunológico (anticorpo anti-PD-L1) e doxorrubicina lipossomal (agente de proteção quimioterapia). Mas como ela age?

Ewingella americana exerceria seus efeitos anticancerígenos atacando diretamente as células tumorais e estimulando as defesas imunológicas do paciente. © win, Adobe Stock (imagem gerada usando IA)
Duplo efeito anticancerígeno
Ewingella americana exerceria seu efeito graças a dois mecanismos complementares:
- uma ação direta nas células cancerígenas: ser anaeróbico (capaz de viver sem oxigênio), Ewingella americana é capaz de proliferar rapidamente e acumular-se no microambiente pobre em oxigênio do tumor, o que aumenta sua potência citotóxico natural;
- uma ação indireta de estimulação defesas naturais: sua presença no organismo dos ratos ativa o sistema imunológicoo que provoca a chegada de células imunológicas (linfócitos Tlinfócitos B e neutrófilos) no site tumoral. Estes também podem contribuir para a destruição das células cancerígenas.
Um excelente perfil de segurança
A ação deEwingella americana é possível graças a vários elementos: o sistema imunológico não o ataca, os vasos sanguíneos são permeáveis a ele (portanto, deixam-no passar através de sua parede para chegar ao tumor) e certos metabólitos produzidos por tumores promovem especificamente o seu crescimento.
Outra vantagem que a torna uma abordagem particularmente promissora: é completamente “segura”. É rapidamente eliminado (é indetectável no sangue após apenas 24 horas), não coloniza órgãos saudáveis (fígado, pulmões, rins…), causa apenas uma reação inflamatória leve e transitória, e não tem toxicidade após 60 dias de observação.
Diante desses resultados animadores, os pesquisadores pretendem agora testar Ewingella americana sobre outros tipos de cancro, nomeadamente da mama, pâncreas e pele. Será também uma questão de avaliar se a sua utilização em combinação com outras terapias anticâncer (imunoterapiaquimioterapia, etc.) podem ser interessantes, particularmente no caso de cancros resistentes ao tratamento.
Independentemente disso, este estudo sugere que a natureza é um reservatório infinito de soluções terapêuticas. E a ciência ainda não terminou de explorá-los!