Com uma beleza assombrosa e trágica, esta trilha sonora é uma das mais belas já compostas na história do cinema. Uma retrospectiva de uma peça lendária, da qual não falamos muito, mas que permanece de rara força.
Em 2004, uma obra coreana violenta, dura e brutal chegou às telas: Old Boy. Dirigido pelo maestro Park Chan-Wook e levado por Choi Min-sik no auge de sua arte, completamente possuído por um personagem ao mesmo tempo fascinante e perturbador: Oh Dae-Soo.
Só para constar, a história nos leva ao final dos anos 80. Oh Dae-Soo, um homem e pai comum, desaparece repentinamente sem deixar vestígios. Seqüestrado na rua, ele acorda trancado em uma cela privada, isolado do mundo. Os anos passam.
A sua única janela para o exterior: uma televisão, através da qual toma conhecimento do assassinato da sua mulher, crime do qual é apontado como principal suspeito. Privado de qualquer explicação, consumido pela incompreensão, Dae-Soo cai gradualmente numa obsessão febril. A angústia dá lugar a uma raiva fria e metódica, que se torna sua única razão para sobreviver.
15 anos depois, ele é libertado repentinamente, sem aviso prévio, sem resposta. Mas a liberdade é apenas uma ilusão. Muito rapidamente, um misterioso instigador entra em contato com ele e lhe impõe um jogo cruel: descobrir a identidade de seu carcereiro e os motivos de sua tortura. Para Oh Dae-Soo, a busca pela verdade se transforma então em uma descida vertiginosa para um pesadelo ainda maior, onde vingança, memória e manipulação se entrelaçam ao ponto da insuportabilidade.
Lado Selvagem
Música agridoce
Uma obra sombria e intransigente, Old Boy marcou a sua época, vencendo nomeadamente o Grande Prémio de Cannes em 2004, perdendo por pouco a Palma de Ouro que teria merecido. Se o filme é notavelmente virtuoso em todas as áreas, também brilha graças à sua esplêndida música composta por Yeong-wook Jo. Uma peça se destaca em particular, intitulada A Última Valsa.
Primeiro, há o seu contraste emocional. A peça é de uma delicadeza e elegância surpreendentes, quase romântica, com cordas muito fluidas e uma estrutura próxima de uma valsa. Park Chan-Wook tem a genialidade de utilizá-lo para acompanhar cenas de extrema violência psicológica.
Esta discrepância cria um mal-estar poderoso, que aperta o coração dos espectadores. Em vez de enfatizar a brutalidade, a música reveste-a de uma beleza inquietante, tornando o impacto ainda mais forte.
Beleza Funerária
Então, o canto serve uma ironia trágica. O próprio título, “Last Waltz”, evoca algo final, quase fúnebre. No contexto do filme, a melancolia infinita que emerge desta composição acompanha uma revelação chave, um momento em que tudo muda, o que lhe confere uma dimensão fatal e inevitável.
Yeong-wook Jo escreveu deliberadamente um tema simples e repetitivo; podemos facilmente imaginar um casal dançando ao som dessa música tão expressiva. Além disso, a música fica facilmente na sua cabeça, um pouco como uma canção de ninar sombria e triste. Esta simplicidade torna-o universal e imediatamente reconhecível.
Por fim, A Última Valsa é indissociável da direção de Park Chan-wook. A forma como a câmera, o ritmo da montagem e a música se alinham transformam a cena em uma espécie de dança visual da morte.
A música não serve apenas como acompanhamento, mas passa a fazer parte da linguagem narrativa. Essa é a genialidade do diretor sul-coreano, que soube aproveitar ao máximo a magistral composição de Yeong-wook Jo.
Mitologia e fatalidade
Assim, o cineasta consegue tecer uma história quase mitológica, regida pelo destino. Aqui tudo já está escrito de antemão, como numa tragédia antiga, e é exatamente esse o efeito que A Última Valsa tem. A peça transforma a revelação final numa coreografia inevitável, quase elegante, como se as personagens seguissem uma partitura que não controlam.
Visualmente, Park Chan-Wook oferece-nos um choque psicológico extremo, e contrabalança uma temática musical que evoca suavidade, fluidez e requinte. Este contraste não é acidental, é uma estratégia estética central para o diretor, que ele também utilizará em suas outras obras.
O diretor implementou conscientemente uma “violência elegante”, onde a música suaviza para melhor chocar. Em última análise, The Last Waltz não é apenas uma bela música, finamente composta por um maestro; é literalmente a forma sonora da fatalidade no filme, e o que o torna absolutamente cult.
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