
O Supremo Tribunal Federal do Brasil considerou inconstitucional na quinta-feira uma lei que impõe restrições aos direitos dos povos indígenas de ocupar suas terras ancestrais.
Muitos cientistas acreditam que as reservas indígenas, protegidas pelo Estado, desempenham um papel essencial na luta contra o aquecimento global, como baluartes contra o desmatamento.
As reivindicações de terras indígenas no maior país da América Latina são objeto de disputa com o poderoso setor agrícola, que é muito influente no Parlamento brasileiro.
Os juízes do Supremo rejeitaram esta quinta-feira a tese do “marco temporal”, contida na lei aprovada em 2023 pelos parlamentares.
Segundo esta tese, os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam no momento da promulgação da Constituição em 1988.
Mas as organizações de defesa indígena argumentam que muitos territórios ancestrais não estavam ocupados na altura porque as populações indígenas tinham sido expulsas à força, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985).
Muitos ativistas indígenas expressaram veementemente sua rejeição ao “marco temporal” em novembro, durante protestos à margem da COP30, Conferência do Clima da ONU, em Belém, na Amazônia brasileira.
A ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, disse à AFP que a lei aprovada pelo Parlamento em 2023 representava um “obstáculo legal” que retardava a aprovação de terras atribuídas aos povos indígenas.
Desde o início do seu terceiro mandato, iniciado em janeiro de 2023, o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva aprovou 20 terras indígenas, enquanto o seu antecessor de extrema direita, Jair Bolsonaro (2019-2022), manteve a promessa de “não dar mais um centímetro” aos povos indígenas.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal já havia declarado esta tese inconstitucional.
Mas esta decisão do mais alto tribunal do país provocou uma reacção do Parlamento com uma forte maioria conservadora, que adoptou uma lei que estipula que o “quadro temporal” deve ser tido em conta na atribuição de terras aos povos indígenas.
Diante desse imbróglio, o Supremo Tribunal lançou um procedimento de “conciliação”.
Cerca de vinte audiências foram organizadas nos últimos meses, com a participação de representantes indígenas e também de defensores do “marco temporal”.
A decisão de quinta-feira encerra um novo capítulo na batalha jurídica, mas o Parlamento brasileiro não disse a última palavra: no dia 10 de dezembro, uma emenda à Constituição que restaura o “marco temporal” foi aprovada no Senado e em breve será submetida aos deputados.