Na sua consulta pública de abril de 2026, a Entidade Reguladora do Audiovisual e da Comunicação Digital (Arcom) levanta um grande tabu: a perspetiva do fim da Televisão Digital Terrestre. Se o encerramento definitivo ainda não foi programado, a hipótese está agora formalmente colocada e obriga as autoridades públicas a antecipar uma transição sem precedentes para o panorama audiovisual francês.
Os números publicados pelo regulador são definitivos. No segundo semestre de 2025, a recepção via caixa de internet (IPTV) passou a equipar 74% dos lares com televisão. Ao mesmo tempo, apenas 34,7% dos agregados familiares ainda recebem TDT em pelo menos uma estação, uma queda de 7 pontos em cinco anos. Os domicílios que dependem exclusivamente da antena rake caíram para 14,4%.

Este público residual também está a envelhecer: quase 80% destes agregados familiares têm uma pessoa de referência com mais de 50 anos e a idade média do telespectador atinge os 58,5 anos. Um grupo demográfico que dificulta qualquer aposta na recuperação da plataforma.

O “efeito tesoura” económico para os editores
Diante da fragmentação das audiências, os canais gratuitos se deparam com uma equação financeira que a Arcom descreve como efeito tesoura. Por um lado, as suas receitas publicitárias estão em colapso: as receitas lineares líquidas caíram 27% em euros constantes entre 2019 e 2025, capturadas em grande parte pelos gigantes digitais e pelas plataformas de vídeo a pedido.
Por outro lado, os custos técnicos da radiodifusão terrestre permanecem incompressíveis e estão a aumentar. O recente congelamento do multiplex R3 levou automaticamente a um aumento dos preços regulamentados de transmissão de até 20% (aumentados pela inflação) em sites não replicáveis. A Arcom prevê mesmo que, se este congelamento persistir, os custos de transmissão poderão exceder as receitas publicitárias geradas pelos telespectadores exclusivos de TDT até 2030.
Pressão internacional sobre o espectro
Para além das restrições económicas, a própria infra-estrutura de rádio está enfraquecida por questões internacionais. Na próxima Conferência Mundial de Radiocomunicações, marcada para 2031, será levantada a questão da transferência da faixa dos 600 MHz, atualmente atribuída à TDT, para os operadores de telefonia móvel.
Se esta realocação for aprovada e implementada em França por volta de 2035, a TNT veria uma parte significativa das suas frequências reduzidas. Tornar-se-ia então tecnicamente muito difícil manter a transmissão de todos os canais actuais em alta definição, sem reduzir a oferta ou impor uma transição dispendiosa para os padrões DVB-T2/HEVC, pelos quais os canais privados, até à data, não manifestaram interesse.
Os dois cenários de extinção previstos pela Arcom
Perante esta constatação, o regulador antecipa o possível fim da TDT submetendo dois grandes cenários para reflexão. A primeira, conhecida como sofrida, veria as editoras entregarem suas frequências uma a uma, julgando a transmissão muito cara. A Arcom simplesmente administraria as lacunas na numeração, com um risco real de uma perda repentina de atratividade e um efeito de arrastamento precipitando a fuga de outros canais.

O segundo cenário, coordenado, confiaria às autoridades públicas a gestão dos desenvolvimentos em nome do interesse geral, com etapas planeadas: primeiro, uma mudança para uma oferta de TDT mais restrita, antes de um possível encerramento total. Essa trajetória exigiria um marco legislativo específico, como o sistema implantado no final da televisão analógica.
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O desafio social pós-TNT
Se a extinção estiver iminente, o verdadeiro desafio será social. As autoridades públicas terão de apoiar os agregados familiares mais vulneráveis, dependentes da antena rake, muitas vezes isolados e idosos, com assistência financeira e técnica que lhes permita equipar-se com soluções alternativas. O desaparecimento desta rede gratuita e universal obrigará também o Estado a definir uma nova oferta de referência nas outras redes, de forma a garantir o acesso contínuo e não discriminatório à televisão gratuita para todos.
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Fonte :
Arcom