Em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, Steven Spielberg e George Lucas basearam-se fortemente na lenda que cerca a caveira de cristal, que se acredita ter 3.600 anos. Um engano nascido em meados do século XIX na realidade…
Em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Steven Spielberg e George Lucas tiveram grande prazer em misturar alegremente uma história desenhada generosamente (um pouco demais…) do lado dos extraterrestres, com uma boa dose de lenda em torno da famosa caveira de cristal. Ou melhor, AS caveiras de cristal. Um belo engano que nasceu em meados do século XIX…
Em busca da Atlântida… Ou quase
“O crânio do destino era feito de puro cristal de rocha e foram necessários, segundo os cientistas, mais de 150 anos para que o crânio perfeito emergisse do trabalho de várias gerações sucessivas trabalhando todos os dias de suas vidas, esfregando pacientemente um imenso bloco de cristal de rocha com areia.
Tem pelo menos 3.600 anos e, segundo a lenda, foi usado pelo Sumo Sacerdote dos Maias durante ritos esotéricos. Diz-se que quando ele desejou a morte, com a ajuda da caveira, isso inevitavelmente aconteceu. Ele foi descrito como a personificação do mal…”
Foi assim que o explorador britânico Frederick Albert Mitchell-Hedges (1882-1959) descreveu em sua autobiografia publicada em 1954 um crânio supostamente descoberto em 1924 ou 1927 por Anna Mitchell-Hedges, de 17 anos, enquanto acompanhava seu pai adotivo à antiga cidade maia de Lubaantun, em Belize.
Uma descoberta extraordinária, embora F. Albert Mitchell-Hedges pensasse que descobriria as ruínas da Atlântida durante a sua expedição… Só isso.
Feito de quartzo transparente e medindo aproximadamente 13 centímetros de altura, pesando 5 kg, lembra superficialmente caveiras de cristal feitas pelos astecas. A história cheia de mistério e magia contada pelo explorador sobre a sua suposta descoberta está directamente na origem das crenças atribuídas ao crânio, desde a arte divinatória à magia negra, ao esoterismo, sem esquecer possíveis poderes curativos.
Pelo menos outros 13 crânios apareceram em todo o mundo, como num passe de mágica. Dois deles, conhecidos como “Crânio Britânico” e “Crânio de Paris”, teriam sido encontrados no México por mercenários no final do século XIX.
A de Paris, anteriormente apresentada no Musée de l’Homme do Palais de Chaillot em Paris e agora nas coleções do Musée du Quai Branly, representaria nada menos que Mictlantecuhtlio deus asteca da morte.
Um velho truque
Escavações no século 20 não confirmaram o suposto lugar da caveira de cristal nas culturas pré-colombianas. Na década de 1990, peças de coleções públicas foram objeto de peritagens cujos resultados indicam tratar-se de criações tardias, sem dúvida de meados do século XIX, entre 1867 e 1886, e até aos anos… 1930! Estamos muito longe dos crânios que supostamente têm milhares de anos…
Em 2007-2008, a caveira de cristal preservada no Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos foi objeto de análise aprofundada usando um microscópio eletrônico de varredura.
O exame revelou que o cristal foi trabalhado com uma ferramenta rotativa de alta velocidade feita de metal duro. Os astecas ou os maias não tinham as ferramentas para esculpir esses crânios com tanta precisão em materiais tão duros…
Imagens Paramount
Na verdade, devemos procurar a gênese dessas caveiras de cristal – em quartzo brasileiro – a partir de um certo Eugène Boban (1834-1908). Antiquário francês baseado no México e especializado em antiguidades mesoamericanas pré-colombianas durante um período em que muitos museus desenvolviam suas coleções etnográficas, Boban não era arqueólogo nem explorador.
Coletando suas peças através de diversos povos, incluindo nativos, simples cidadãos ou autênticos arqueólogos, as caveiras de cristal de Paris e Londres teriam passado por suas mãos.
Não sabemos se essas imitações ou falsificações foram feitas sem o seu conhecimento ou com a sua cumplicidade. Ainda assim, a máquina criadora de mitos esteve em movimento, pelo menos durante algumas décadas…
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