Pela primeira vez, a toxina cereulide, que está na origem da actual onda de recolhas de leite infantil, foi detectada num bebé francês, numa altura em que as famílias acusam o Estado de minimizar os riscos através de uma monitorização insuficiente.
A França recebeu “um primeiro resultado de análise de fezes positivo para a toxina cereulide”, anunciou o Ministério da Saúde na sexta-feira, confirmando informações da Rádio França.
Esta é a primeira vez para um bebê francês depois de dois meses de dúvidas e questões de saúde em torno do caso da fórmula infantil.
Isto começou com o recall pela Nestlé de dezenas de lotes em cerca de sessenta países devido à presença potencial de cereulide, uma toxina que pode causar vómitos perigosos num recém-nascido.
Depois, cresceu com uma cascata de recalls semelhantes por parte de fabricantes como Danone ou Lactalis, mas também de participantes menores neste mercado em crescimento. Ponto comum, ingrediente fornecido pelo mesmo subcontratado chinês.
Foram notificadas três mortes entre bebés que consumiram leite alvo dos recalls em França, o único país europeu neste caso, bem como cerca de dez hospitalizações. Mas nenhuma ligação de causa e efeito ainda foi identificada.
Neste contexto, o anúncio de sexta-feira dá uma pista a favor do envenenamento, ainda que o Ministério da Saúde continue na sua linha, garantindo que é muito cedo para evocar uma ligação e, portanto, as primeiras consequências sanitárias comprovadas desta onda de recalls.
O ministério não divulga detalhes do caso. Segundo a Rádio França, trata-se de um bebé hospitalizado durante a noite no início de fevereiro em Montpellier e que consumiu leite Gallia (Danone).
A presença de cereulide “é suscetível de explicar os sintomas observados”, reconhece o ministério, mas a “atribuibilidade” só pode ser estabelecida pelos “cuidadores que cuidaram da criança” em articulação com os “especialistas em toxicologia mobilizados no âmbito das investigações”.
Esta evolução surge num momento em que várias famílias acusam diretamente o Estado de aplicar uma política de vigilância que minimiza a realidade das consequências para a saúde.
– Casos na Bélgica –
As associações, que iniciaram diversas ações judiciais contra o Estado e os fabricantes, apontam, em particular, recolhas demasiado tardias, com responsabilidade excessiva deixada aos fabricantes e capacidades de análise insuficientes, tendo a França tido que delegar a investigação do cereulide à Bélgica. Já foi possível reportar em meados de fevereiro a presença da toxina em oito bebês que consumiram leite recolhido, todos apresentando apenas sintomas “leves”.
A França esperou várias semanas antes de enviar aos cuidadores e hospitais critérios que justificassem um alerta, sendo este último bastante amplo e pouco distinto da gastroenterite.
“Podemos dizer que estamos a minimizar o censo de casos para que haja menos vítimas registadas”, afirma Nathalie Goutaland, advogada do coletivo Intox’Alim, que reúne várias famílias.
Me Goutaland, que esta semana remeteu o assunto ao Conselho de Estado, avança a possibilidade de um “conflito de interesses” por parte do Estado face ao risco de ser confrontado com as suas responsabilidades.
“Há, de facto, uma minimização”, para Quentin Guillemain, presidente da associação APS-Enfants, nascida do caso Lactalis já envolvendo o leite infantil em 2017. Acredita que, a longo prazo, “o Estado será provavelmente condenado por falha culposa”.
O Ministério da Saúde, por sua vez, defende a ideia de não ter procurado fazer um inventário exaustivo das intoxicações, mas de ter focado nos casos potencialmente mais graves.
O desafio é antes “permitir que as autoridades prestem especial atenção às situações mais sensíveis”, explica à AFP.
Desde o início da crise, as autoridades de saúde também garantiram várias vezes que a realização de análises não é crucial para os médicos, uma vez que um bebé será tratado da mesma forma, quer sofra de intoxicação por cereulide ou de gastroenterite grave.
“É irrelevante que a deteção da cereulide não tenha impacto nos cuidados”, responde Me Goutaland, acreditando que está em causa um “direito de acesso à prova” para as famílias.