Centenas de pessoas em todo o Japão irão iniciar ações legais contra o seu governo na quinta-feira devido à sua inação “inconstitucional” em relação às alterações climáticas, uma novidade no país.
A queixa histórica denuncia a luta “grosseiramente insuficiente” do país contra as alterações climáticas, argumentando que põe em risco a saúde e os meios de subsistência de cerca de 450 demandantes.
Entre eles, Kiichi Akiyama, um trabalhador da construção civil de 57 anos, disse à AFP que o calor implacável estava forçando sua equipe a trabalhar mais lentamente, causando “enormes perdas” para sua empresa.
“Houve casos em que pessoas desmaiaram no canteiro de obras ou morreram ao voltar para casa”, acrescentou.
Cinco ações judiciais relacionadas com o clima foram movidas no passado em tribunais japoneses, nomeadamente contra centrais elétricas a carvão, disse à AFP Masako Ichihara, professor da Universidade de Quioto. Mas, de acordo com os advogados dos demandantes, este é o primeiro pedido de indemnização dirigido ao Estado pela sua inacção – uma análise partilhada pela Sra. Ichihara, especialista em litígios climáticos no Japão.
– 5,5 euros de indemnização –
As medidas contra as alterações climáticas “são extremamente insuficientes e, como resultado, os direitos dos demandantes a uma vida pacífica e ao gozo de um clima estável são violados”, afirma o resumo da denúncia, obtido pela AFP antes de ser apresentada.

O Japão viveu este ano o Verão mais quente desde que os registos começaram em 1898, e os demandantes argumentam que estas ondas de calor ameaçam a saúde das pessoas, causam perdas económicas e afectam as colheitas.
No verão, “mal consigo cavar com uma pá durante 10 minutos antes de ter que me sentar para descansar”, diz Akiyama, que estima que sua equipe agora leva três vezes mais tempo do que o esperado para concluir seu trabalho.
“Não estaríamos nesta situação terrível se o governo tivesse tomado mais iniciativas para implementar políticas”, avalia.
Procedimentos semelhantes foram lançados em todo o mundo. Um tribunal sul-coreano decidiu no ano passado que muitas das metas climáticas do país iam contra a constituição, e uma decisão semelhante foi emitida na Alemanha em 2021.
A queixa apresentada no Japão pede uma indemnização de 1.000 ienes (5,5 euros) por demandante, com o advogado principal, Akihiro Shima, a explicar o desejo de enfatizar “a responsabilidade do país” em vez da quantidade de dinheiro.
As hipóteses de vitória nos tribunais do Japão são escassas, mas “se o objetivo desta queixa for acima de tudo sensibilizar o público (para as questões climáticas), então poderá ter sucesso”, avalia Masako Ichihara, que considera a sua mensagem “muito reveladora”.
– Objectivos “muito abaixo” dos padrões –
Outra queixosa, que apenas forneceu o seu apelido, Saito, quis tomar medidas devido à sua preocupação com o seu filho de seis anos.

As recentes temperaturas recordes, diz ela, estão a privá-la cada vez mais da oportunidade de brincar ao ar livre, com piscinas públicas por vezes proibidas durante os avisos de ondas de calor.
A denúncia critica o objectivo do Japão de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, considerado incompatível com o objectivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5°C em comparação com o período pré-industrial.
O Japão comprometeu-se a reduzir as suas emissões em 60% até 2035 em comparação com 2013, e em 73% até 2040.
Mas estas metas “ficam muito aquém” das reduções globais recomendadas no último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e não são juridicamente vinculativas, sublinha o resumo da queixa.
“Esta omissão legislativa é indiscutivelmente inconstitucional”, conclui.