“O silêncio é um som, um barulho?”pergunta Jordi Campoy em nossa página no Facebook. Esta é a nossa pergunta do leitor da semana. Obrigado a todos pela sua participação.

“Os filósofos debatem há muito tempo se o silêncio é algo que podemos perceber literalmente, mas nenhum estudo científico abordou esta questão diretamente.”explicou Chaz Firestone, professor assistente de psicologia da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), em artigo publicado em 2023 e intitulado “O silêncio produz sons que podemos ouvir, segundo estudo“.

“O silêncio, seja ele qual for, não é som, é ausência de som”

Para fugir do debate abstrato, Chaz Firestone e sua equipe escolheram um caminho original: usar ilusões auditivas para testar a percepção… da ausência de som.

Seu estudo, publicado em 2023 na revista Anais da Academia Nacional de Ciências (PNAS), não pretende redefinir o silêncio como um som. Pelo contrário, os investigadores são claros: “O silêncio, seja ele qual for, não é som, é ausência de som”sublinhou em 2023 Rui Zhe Goh, coautor do estudo. Mas então, o que exatamente nosso cérebro percebe quando não há “nada” para ouvir?

Para responder a esta questão, esta equipa de investigação subverteu ilusões auditivas bem conhecidas, que se baseiam na segmentação: o nosso sistema auditivo corta constantemente o fluxo contínuo de ondas sonoras em eventos distintos (uma nota, uma palavra, um sinal sonoro). A aposta foi ousada: substituir sons por silêncios. Se as mesmas ilusões aparecessem, isso significaria que o cérebro também trata os silêncios como eventos auditivos por direito próprio.

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“Ouvimos o silêncio”

A experiência envolveu cerca de 1.000 participantes. Eles primeiro ouviram paisagens sonoras simulando o barulho de locais públicos. Depois as mesmas cenas auditivas, desta vez interrompidas por breves períodos de silêncio. Resultado: tal como acontece com os sons, um silêncio longo é percebido como mais longo do que dois silêncios curtos, mesmo quando a duração total é a mesma. “Isso sugere que o sistema auditivo processa os momentos de silêncio da mesma forma que os sons. Em outras palavras, ouvimos o silêncio”resumiu Ian Phillips, coautor do estudo, em 2023.

Neste experimento, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins substituíram sons por silêncio em uma conhecida ilusão auditiva. Créditos: Universidade Johns Hopkins

“Há pelo menos uma coisa que ouvimos que não é um som.”

Cuidado, porém, com a conclusão precipitada: ouvir o silêncio não significa que ele se transforme em ruído. Os pesquisadores enfatizam a nuance. O silêncio continua sendo uma ausência de estimulação sonora, mas essa ausência é processada ativamente pelo sistema auditivo, da mesma forma que a presença de um som.

“Há pelo menos uma coisa que ouvimos que não é som: o silêncio que ocorre quando os sons desaparecem”especifica Ian Phillips. Por outras palavras, o nosso ouvido – e especialmente o nosso cérebro – não regista apenas vibrações: detecta também as suas interrupções, os seus contrastes, os seus desaparecimentos.

Existe silêncio absoluto?

Este estudo não encerra o debate filosófico, mas o enriquece. Quais são os limites da nossa percepção do silêncio? Podemos ouvir silêncios muito longos? E acima de tudo, existe silêncio absoluto, ausência total de sons, ou o nosso cérebro acaba sempre “preenchendo as lacunas”? Tantas questões que abrem um novo campo de investigação: o da percepção da ausência. Uma forma de talvez entender por que o silêncio às vezes pode pesar tanto quanto um barulho.

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