“Quando me vi preso na água, passei a desejar a morte, por causa das dores causadas pelas contrações e pela situação em que me encontrava.”

Aos 17 anos, Erica Raimundo Mimbir deu à luz o primeiro filho no dia 19 de janeiro, à mesa de uma sala de aula da escola primária Ilha Josina, na província de Maputo, em Moçambique, depois de passar vários dias na sua casa invadida pela água.

Evacuada de barco no dia 20, Érica encontrou agora refúgio com familiares na localidade vizinha de 3 de Fevereiro. Ela é um dos 650 mil moçambicanos afectados, segundo a ONU, pelas cheias provocadas pelas chuvas torrenciais que caem no sul e centro do país desde Dezembro.

Erica Raimundo Mimbir segura sua bebê Rosita nos braços, em um abrigo de emergência na localidade de 3 De Fevereiro, em 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP - Emidio JOZINE)
Erica Raimundo Mimbir segura sua bebê Rosita nos braços, em um abrigo de emergência na localidade de 3 De Fevereiro, em 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP – Emidio JOZINE)

“Acho que não voltarei para casa porque nunca vivi uma situação como essa. Não me vejo voltando para esta casa depois do que vi lá. Dormimos na água, sentados.

Ela batizou seu bebê, nascido prematuro com 1,5 quilo, de Rosita. Em referência a Rosita Salvador, cuja mãe deu à luz enquanto se refugiava numa árvore antes de ser resgatada de helicóptero, durante as catastróficas cheias de 2000 que deixaram 800 mortos. Rosita Salvador, que morreu em Janeiro de uma longa doença, tornou-se um símbolo desta tragédia.

Um homem pesca num campo inundado perto da localidade 3 de Fevereiro, na província de Maputo, em 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP - Emidio JOZINE)
Um homem pesca num campo inundado perto da localidade 3 de Fevereiro, na província de Maputo, em 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP – Emidio JOZINE)

Quase 140 pessoas morreram nas cheias em Moçambique desde 1 de Outubro, segundo a agência nacional de gestão de catástrofes (INGD).

E cerca de 100 mil dos 650 mil moçambicanos afectados encontraram refúgio num dos 99 centros de alojamento temporário, segundo a agência das Nações Unidas para a coordenação da ajuda humanitária (OCHA).

– “Meu coração não está em paz” –

Na localidade 3 de Fevereiro, uma escola foi convertida num centro de alojamento de emergência, onde cerca de 530 pessoas, distribuídas em 11 salas de aula, encontraram refúgio e só começavam a vislumbrar as consequências dramáticas das cheias para o seu futuro, quando algumas perceberam que tinham escapado à morte.

Pessoas deslocadas pelas cheias dormem no chão numa escola onde encontraram refúgio, na comuna 3 de Fevereiro, na província de Maputo, a 27 de Janeiro de 2026 em Moçambique (AFP - Emidio JOZINE)
Pessoas deslocadas pelas cheias dormem no chão numa escola onde encontraram refúgio, na comuna 3 de Fevereiro, na província de Maputo, a 27 de Janeiro de 2026 em Moçambique (AFP – Emidio JOZINE)

É o caso de Elsa Paulino, 36 anos e mãe de cinco filhos. Naquele dia, ela foi com os dois mais novos assistir a um velório fora da sua aldeia, e os três mais velhos em casa. Mas no caminho de volta, a água cobriu a estrada e agora torna a viagem perigosa.

Ela ainda tentou a sorte: “Eu estava desesperada (para encontrar meus filhos, nota do editor). (Mas) o carro em que eu estava quase foi arrastado pelas águas turbulentas.”

Ela voltou atrás e depois conseguiu organizar a evacuação remota dos seus três filhos mais velhos, de autocarro, para familiares que viviam mais a sul, na província de Gaza, duramente atingida pelas cheias.

“Apesar das inundações na província de Gaza, sei neste momento que os meus filhos estão num lugar seguro. Mas o coração da minha mãe não está em paz.

Um motociclista anda numa estrada danificada pelas cheias perto da cidade de 3 de Fevereiro, 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP - Emidio JOZINE)
Um motociclista anda numa estrada danificada pelas cheias perto da cidade de 3 de Fevereiro, 27 de janeiro de 2026 em Moçambique (AFP – Emidio JOZINE)

As inundações causaram danos significativos em infra-estruturas cruciais: estradas, pontes, rede eléctrica, rede de água potável, dificultando a prestação de ajuda. A N1, a principal estrada que liga Maputo ao norte, ainda está cortada.

Cerca de 325 mil cabeças de gado morreram e 285 mil hectares de terras agrícolas foram danificados, diz o OCHA.

Salvador Maengane, um agricultor de 67 anos encontrado pela AFP no centro de 3 de Fevereiro, explica ter perdido tudo.

“Toda a minha quinta está inundada. Em Maio era suposto eu colher cana-de-açúcar e em Março milho e legumes. Está tudo perdido e não tenho mais nada para vender. Todo o rendimento da minha família desapareceu”, lamenta o homem de corpo magro, que cultiva cinco hectares em Xinavane, mais a norte.

“Muita gente está sofrendo porque é a primeira vez que vejo uma tragédia dessa magnitude”, diz ele.

“Nas épocas chuvosas anteriores, era sempre possível colher em locais onde a água não chegava. Mas este ano esteve em todo o lado.”

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