Se vaporizar é menos prejudicial do que fumar tabaco, significa correr riscos para a saúde ao inalar substâncias tóxicas: o uso de cigarros eletrónicos deve ser reservado à cessação do tabagismo e ser o mais curto possível, afirma a agência de segurança sanitária.

Em 15 anos, o cigarro eletrónico estabeleceu-se na vida de mais de três milhões de franceses, daí a necessidade de questionar os possíveis riscos para a saúde associados à vaporização. A Agência Nacional de Segurança Sanitária (ANSES) mobilizou assim 14 especialistas que analisaram 2.864 estudos científicos e vários relatórios internacionais, para emitirem o seu parecer na quarta-feira.

Deste trabalho emerge que a vaporização “apresenta riscos para a saúde” porque “significa inalar substâncias nocivas”, resume à AFP Benoît Labarbe, chefe da unidade de avaliação de produtos de tabaco da agência. “É por isso que devemos absolutamente evitar qualquer vaping para não fumantes e jovens que são atraídos pelos sabores frutados e doces desses produtos.”

Por outro lado, para os fumadores de cigarros tradicionais, “este pode ser, a par de outros produtos de substituição da nicotina, uma ferramenta de abstinência cujo uso terá então de ser interrompido”, acrescenta.

Os efeitos nocivos identificados estão ligados à inalação repetida de substâncias tóxicas: estas são liberadas quando o equipamento é utilizado (o cigarro eletrônico pode emitir metais), já presentes no líquido – propilenoglicol, glicerol, aromas – e se formam quando esse líquido é aquecido.

Entre os que se formam durante o aquecimento, os aldeídos “fixam-se nos tecidos do trato respiratório e degradam-nos”, explica o farmacêutico Thibault Mansuy, coordenador da perícia. “Se esse dano se repetir ao longo do tempo, os tecidos terão dificuldade em se reparar adequadamente.”

O que se tem observado é uma alteração das células (danos no DNA), que pode promover o câncer. Este último leva décadas para aparecer, portanto a retrospectiva é insuficiente em qualquer caso.

– “106 substâncias preocupantes” –

Outros riscos atestados por estudos científicos: efeitos cardiovasculares prejudiciais, considerados “prováveis” ao vaporizar um e-líquido contendo nicotina, e “possíveis” mesmo sem nicotina – alterações na frequência cardíaca, pressão arterial, etc., que podem levar a patologias cardíacas a longo prazo.

E a nível respiratório, alguns estudos sugerem um aumento na ocorrência de uma doença pulmonar crónica, a DPOC. Por outro lado, os dados são insuficientes para atestar uma ligação com asma ou bronquite.

Finalmente, para a criança exposta no útero, a vaporização da mãe tem efeitos “possíveis”, tanto no desenvolvimento cardiovascular como no nível “respiratório”: alterações na frequência cardíaca e nos tecidos pulmonares, fenómenos inflamatórios, etc.

É por isso que, às fumadoras que estão grávidas ou que planeiam engravidar, a ANSES recomenda a cessação total do tabagismo, acompanhada por um profissional de saúde, “evitando, se possível, os cigarros eletrónicos”.

Outro efeito nocivo: quando se vaporiza um e-líquido contendo nicotina, “o aerossol gerado pelo cigarro eletrónico tem o mesmo poder viciante que o fumo do cigarro”, lembra a agência de saúde. O vaper, portanto, terá dificuldade em parar.

No total, das 1.775 substâncias presentes nos aerossóis (o vapor inalado pelo vaper), a ANSES identificou 106 que considera “particularmente preocupantes”, embora presentes em “concentrações significativamente inferiores” às do fumo dos cigarros convencionais.

Com base no conhecimento atual, nenhum dos efeitos observados da vaporização para a saúde “excede, em gravidade ou nível de evidência”, os do tabaco fumado – graças à ausência de combustão, que liberta uma grande quantidade de substâncias tóxicas.

Por fim, a ANSES alerta para os perigos de compor o seu próprio e-líquido, como faz um em cada dois vapers, para poupar dinheiro: os riscos são os da overdose, da utilização de ingredientes não adequados para inalação, como óleos essenciais, ou da ingestão acidental por crianças.

Fonte

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *