A vacinação contra o sarampo está a progredir em todo o mundo, mas permanece abaixo dos níveis anteriores à pandemia de Covid-19, alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS), apontando o obstáculo da desinformação relativamente às vacinas mas sobretudo as dificuldades de acesso aos mais vulneráveis.
A cobertura global da primeira dose atingiu 84% em 2024, acima dos 83% em 2023 e 71% em 2000, mas permanece inferior aos 86% alcançados antes da Covid-19, anunciou a organização sexta-feira num novo relatório.
Além disso, só em 2024, “20,6 milhões de crianças não receberam a primeira dose, mais de metade delas em África”, alerta a OMS. No entanto, o sarampo, que é muito contagioso, exige uma cobertura vacinal de pelo menos 95% com duas doses para reduzir a sua transmissão.
“É uma doença grave que pode ser fatal; crianças com menos de cinco anos de idade, mulheres grávidas e pessoas com sistemas imunitários debilitados correm maior risco de complicações graves e morte”, lembrou à imprensa Kate O’Brien, diretora do departamento de imunização e vacinas da OMS.

A cobertura vacinal da segunda dose melhorou consideravelmente desde 2000, passando de 17% para 76% em 2024.
Mas as lacunas persistentes “na imunidade alimentaram um ressurgimento de epidemias, com 59 países a registarem surtos significativos ou perturbadores no ano passado – um número recorde desde 2003”, refere a OMS.
E “o facto de 25% dos surtos ocorrerem em países considerados livres do sarampo é muito alarmante”, disse à imprensa Diana Chang Blanc, chefe de unidade do Programa Essencial de Imunização da OMS.
Muitos países das Américas sofreram epidemias em 2025. O Canadá perdeu recentemente o seu estatuto de país livre do sarampo, sublinha a OMS, e os especialistas acreditam que os Estados Unidos – lar da pior epidemia em mais de 30 anos – poderão seguir o exemplo.
“Cada caso que vemos hoje (…) lembra-nos o que acontece quando a cobertura vacinal diminui e quando os sistemas de saúde não conseguem chegar a todas as crianças”, disse a Sra. O’Brian.
– “Hesitação vacinal” –
Entre as causas identificadas, a organização menciona os efeitos persistentes do “declínio cumulativo da cobertura vacinal durante a pandemia de Covid-19”, que perturbou os serviços de saúde.
A “hesitação em relação à vacinação” é outro factor, admitiu a Sra. Chang Blanc, observando que a desinformação “influencia a confiança e a procura pelos serviços de vacinação”.

Mas o principal problema continua a ser a dificuldade de atingir determinadas populações. “Trata-se de acesso para as populações que mais necessitam, que têm múltiplas dificuldades, e de integrá-las no sistema de saúde”, sublinhou.
Assim, para colmatar estas lacunas, a OMS recomenda “reforçar os sistemas de cuidados de saúde primários e de rotina, adaptar estratégias e métodos inovadores para chegar às populações mais difíceis de alcançar e realizar campanhas de vacinação em massa” onde a vacinação de rotina é insuficiente.
A organização também aconselha as autoridades de saúde a reforçarem “as capacidades de resposta rápida às epidemias”, aumentarem o compromisso político e a apropriação local, tudo com o apoio de “financiamento sustentável”.
“Um mundo sem sarampo e rubéola só será possível se todas as crianças, em todos os lugares, em todos os países e mesmo nas regiões mais remotas, forem imunizadas”, lembrou a Sra. Chang Blanc.
Em 2024, a organização estima que 11 milhões de pessoas estarão infectadas com sarampo em todo o mundo, quase 800 mil a mais do que antes da pandemia de 2019, mas o progresso global é significativo se compararmos estes números com os cerca de 38 milhões de casos registados em 2000.
Quanto ao número de mortes em 2024 (95.000), é um dos mais baixos registados desde 2000. A maioria envolveu crianças menores de cinco anos e 80% das mortes ocorreram em África e na região do Mediterrâneo Oriental.