![]()
Transtornos alimentares, gênero, corpo, identidade… Em redes sociaiscada assunto íntimo torna-se tema de debate público. Se estes discursos sensibilizam para questões de saúde e sociais, também podem incentivar o automonitoramento, fonte de desconforto.
Os indicadores de saúde mental dos jovens deterioram-se continuamente.
De acordo com oOrganização Mundial de Saúde (OMS), quase um em cada cinco jovens sofre hoje de uma perturbação mental: ansiedade, perturbações alimentares, sensação de isolamento, exaustão emocional. Os pedidos de ajuda estão explodindo. Ao mesmo tempo, o tempo gasto nas redes sociais continua a crescer: os jovens entre os 15 e os 24 anos passam, em média, mais de três horas e meia por dia (Arcom, 2024).
Esta geração não é apenas a mais conectada: é também a mais exposta a constantes discursos sobre saúde mental, corpo, identidade e performance. Esta exposição contínua redefine a forma como os jovens percebem as suas emoções, interpretam os seus comportamentos e avaliam a sua “normalidade”.
Redes que aprendem a examinar e comparar umas às outras
Nas redes sociais, todo assunto íntimo vira tema de debate público: identidade sexual, gênero, TDAH, alto potencial, transtornos alimentares, dislexia, estresse, normas físico… Essas conversas, às vezes lançadas com a intenção benevolente de conscientizar, às vezes acabam nutrindo a hiperautoconsciência.
Os jovens aprendem, dia após dia, a examinar-se, a diagnosticar-se, mas sobretudo a comparar-se. Toda emoção se torna suspeita: “ Estou estressado? TDAH? Hipersensível? ”, cada desvio das normas visíveis nas redes sociais torna-se motivo de preocupação. Esse medo constante de si mesmo cria um terreno fértil para a infelicidade.

Etiquetas:
tecnologia
Banir redes sociais para crianças… missão impossível?
Leia o artigo
Os jovens de hoje não estão necessariamente mais estressados biologicamente do que as gerações anteriores – eles aprenderam principalmente a ter medo de ficar estressados, de acordo com Sonia Lupien, pesquisadora de neurociências. Em outras palavras, é a representação negativa do estresse que aumenta sua intensidade.
Nossa pesquisa destaca que as redes sociais funcionam como um fundo financeiro ressonância desconforto. Ao transmitirem continuamente mensagens alarmistas segundo as quais a infelicidade é um veneno ou ao difundirem discursos imbuídos de positividade exagerada, mantêm a crença de que um indivíduo equilibrado deve ser constantemente sereno e eficiente.
Ao apresentarem a ansiedade, o cansaço ou mesmo a diferença como sinais alarmantes, os jovens acabam por temer não sofrer de patologias que os tornem “normais” aos olhos dos outros.
O desconforto tornou-se, portanto, social e simbólico. Através das redes sociais, torna-se difusoconstante e fortalecida de acordo com a visibilidade dos conteúdos digital e a comparação social a que estão subjacentes. Assim, os jovens já não fogem de uma ameaça externa, mas sim de um julgamento coletivo permanente, o dos pares e dos algoritmos que regulam a sua autoimagem.
Em última análise, ao apresentarem a ansiedade, o cansaço ou mesmo a diferença como sinais alarmantes, os jovens acabam por temer não sofrer de patologias que os tornem “normais” para olhos de outros.
Uma internalização de padrões
De acordo com a teoria da aprendizagem social, os indivíduos aprendem a se comportar e a se perceber observando os outros. As redes sociais funcionam precisamente com base neste princípio: cada imagem, cada testemunho funciona como um micromodelo de comportamento, postura ou emoção.
A nossa investigação no âmbito do (projeto Alimnum)*, que visa estudar o impacto do consumo digital dos alunos na sua saúde, e em particular nas suas práticas nutricionais, constitui um caso concreto que ilustra este fenómeno. Os influenciadores são figuras mediáticas para os jovens e hoje personificam modelos normativos reais. No campo de fitness por exemplo, seu conteúdo defende disciplina, autocontrole e desempenho corporal.
Esta exposição repetida promove a internalização de normas estéticas e uma autovigilância constante – o que Michel Foucault já descreveu como uma “governamentalidade do corpo”. Os jovens já não se contentam em ver estes modelos: aprendem a julgar-se através deles.
Redescubra a sensação de nuance
As redes sociais estão a tornar-se uma ferramenta de automonitorização: os jovens aprendem a reconhecer os sintomas, mas também a identificar-se com eles. A expressão do mal-estar torna-se um marcador de legitimidade social onde o sofrimento é medido, comparado e valorizado.
Nosso trabalho destaca o medo de ser imperfeito ou de não estar em conformidade com as normas sociais e corporais que circulam online. O ambiente digital funciona então como um amplificador da vigilância interior, que transforma a regulação emocional numa fonte de ansiedade.

Etiquetas:
saúde
Esse equívoco sobre saúde mental causa mais danos do que imaginamos
Leia o artigo
Em vez de eliminar o desconforto, devemos reabilitar a ambivalência: medo, dúvida, imperfeição. A saúde mental não consiste em suprimir esses estados, mas em aprender a conviver com eles.
Na era das redes sociais, esta aprendizagem de nuances torna-se uma forma de resistência : aceitar não medir tudo, nem sempre dar certo. Esta é sem dúvida a verdadeira questão: “despatologizar” a experiência comum, para permitir que os jovens vivam consigo mesmos – e não contra si mesmos.
*O projeto Food and Digital – ALIMNUM é apoiado pela Agência Nacional de Investigação (ANR), que financia a investigação baseada em projetos em França. A missão da ANR é apoiar e promover o desenvolvimento de pesquisas fundamentais e finalizadas em todas as disciplinas e fortalecer o diálogo entre ciência e sociedade. Para saber mais consulte o site da ANR.