
Clostridium esporogenes tem a capacidade de destruir certos tumores por dentro, comendo-os. Ciência e Futuro questionou um de seus especialistas, Marc Aucoin, professor de engenharia química da Universidade de Waterloo (Canadá). Com sua equipe, ele está trabalhando nas propriedades dessa bactéria; esses pesquisadores publicaram um estudo recente na ACS Synthetic Biology sobre esse assunto.
“Uma coisa que os cientistas sabem há mais de 100 anosexplica o biólogo Sciences et Avenir é que certas bactérias anaeróbicas podem atingir naturalmente tumores sólidos. O interior de um tumor é um ambiente muito particular onde há falta de oxigênio. E certas bactérias como Clostridium sporogenes só conseguem sobreviver nestas condições sem oxigénio. As células mortas dentro do tumor transformam-se em alimento.” Mas há um problema: quando a bactéria chega à periferia do tumor, o nível de oxigênio aumenta e a bactéria morre sem terminar o seu trabalho.
A função do detector de quorum
Para contrariar esta dificuldade, Marc Aucoin e a sua equipa realizaram duas grandes modificações genéticas nas bactérias. Primeiro, em 2023, adicionaram um gene de tolerância ao oxigênio copiado de outra bactéria do gênero Clostridium. Mas apenas com este gene, a bactéria poderia se espalhar por todo o corpo, onde o oxigênio é abundante. Assim, no final de 2025, os investigadores adicionaram um segundo gene: o detector de quorum.
Este detector permite que uma bactéria saiba o número de bactérias próximas. Quando há um número suficiente deles – no tumor – o detector de quorum permite que o gene de tolerância ao oxigênio seja ativado. A bactéria pode, portanto, continuar a atacar o tumor, sem se espalhar por todo o corpo. O próximo passo seria testar essa superbactéria modificada em estudos pré-clínicos, para observar como ela atua em condições reais. A pesquisa demorará, portanto, muito antes de adicionar Clostridium esporogenes ao arsenal anticâncer. Trabalho de longo prazo por um caminho que traga esperança.