Em abril de 2024, uma equipa de cientistas britânicos publicou os resultados de um estudo fascinante sobre a ligação entre visão e demência. As suas descobertas, baseadas na monitorização de mais de 8.000 pessoas durante vários anos, sugerem que alterações na sensibilidade visual podem anunciar o início da demência até 12 anos antes do seu diagnóstico clínico. Esta descoberta abre novas perspectivas para a detecção precoce e gestão desta doença neurodegenerativa.

Visão, uma janela para nossa saúde cognitiva

O estudo realizado no condado de Norfolk, na Inglaterra, envolveu 8.623 participantes inicialmente saudáveis. Ao longo dos anos, 537 deles desenvolveram demência, permitindo aos investigadores identificar os factores precursores desta doença. O teste de sensibilidade visual revelou-se particularmente revelador:

  • os participantes tiveram que localizar um triângulo se formando em um campo de pontos em movimento ;
  • aqueles que posteriormente desenvolveram demência demoraram significativamente mais para perceber o triângulo;
  • essa diferença no desempenho visual era observável bem antes do aparecimento dos sintomas cognitivos clássicos.

Estes resultados sugerem que os distúrbios visuais podem ser um sinal precoce de declínio cognitivo. Na verdade, as placas amilóides, características da doença de Alzheimer, parecem afectar primeiro as áreas do cérebro ligadas à visão, antes de atingirem as associadas à memória.

Além da sensibilidade visual: outras pistas reveladoras

Os pesquisadores identificaram vários aspectos do processamento visual afetados pela doença de Alzheimer:

Aparência visual

Impacto da demência

Sensibilidade a contraste

Dificuldade em perceber os contornos dos objetos

Percepção de cores

Alteração da visão no espectro azul esverdeado

Controle inibitório de movimentos oculares

Aumento da distração por estímulos circundantes

Estas alterações subtis na visão podem afectar a vida quotidiana das pessoas afectadas, muitas vezes sem o seu conhecimento. Por exemplo, problemas no controlo dos movimentos oculares podem aumentar o risco de acidentes rodoviários, uma hipótese que está actualmente a ser investigada na Universidade de Loughborough.


A análise dos movimentos oculares e de certos distúrbios visuais pode prever a demência anos antes do seu diagnóstico. ©CanvaPro

Reconhecimento facial e movimentos oculares: caminhos promissores

O estudo também destacou peculiaridades na forma como as pessoas com demência processam o enfrentamento: “Em indivíduos saudáveis, o olhar geralmente segue um padrão específico: olhos, narizboca. Este processo permite que os rostos sejam memorizados de forma eficaz. As pessoas com demência, por outro lado, parecem ter dificuldade em seguir este padrão, o que poderia explicar os seus problemas com o reconhecimento facial.

Essa observação abre novas perspectivas para o diagnóstico precoce da doença. Alguns médicos afirmam ser capazes de detectar a demência ao conhecer um paciente pela primeira vez, observando seu comportamento visual.

Além disso, pesquisas sugerem que estimular os movimentos oculares pode melhorar a memória. Esta hipótese poderia explicar porque é que as pessoas que lêem muito ou vêem televisão têm frequentemente um risco reduzido de demência. Por outro lado, outros factores, como o nível de escolaridade, também entram em jogo.

Rumo a novos métodos de diagnóstico e tratamento

Apesar destas descobertas promissoras, o uso dos movimentos oculares como ferramenta de diagnóstico ou tratamento da demência permanece limitado. Os principais obstáculos são:

  • o alto custo das tecnologias de rastreamento ocular;
  • a necessidade de treinamento específico para utilização e análise desses equipamentos;
  • a falta deestudos clínicos em grande escala sobre a eficácia terapias com base nos movimentos dos olhos.

No entanto, estes avanços abrem caminho para novas abordagens na gestão da demência. À medida que a tecnologia avança e se torna mais acessível, poderemos ver surgir ferramentas de diagnóstico precoce baseadas na visão, permitindo uma intervenção mais rápida e potencialmente mais eficaz contra esta doença devastadora.

Este estudo inovador destaca a importância da investigação interdisciplinar na luta contra a demência e serve como um lembrete de que, por vezes, as respostas às nossas maiores questões de saúde estão mesmo diante dos nossos olhos.

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