Não havia grandes primatas no Norte da África durante o Mioceno Inferior. Era, até agora, uma certeza virtual, mas a descoberta de Masripithecus moghraensisdatado de 17 a 18 milhões de anos atrás, abala esse quadro bem estabelecido e redesenha o mapa das origens dos hominóides.

Uma mandíbula que preenche um vazio

Os hominóides incluem os atuais grandes macacos (gibões, orangotangos, gorilas, chimpanzés e humanos), bem como seu último ancestral comum. A sua origem é objecto de intenso debate, nomeadamente no que diz respeito ao seu berço geográfico. Até agora, os fósseis do Mioceno Inferior apontavam principalmente para a África Oriental, onde várias espécies antigas foram descritas. Por outro lado, o Norte da África produziu principalmente fósseis de macacos mais primitivos.

É neste contexto que a descoberta de Masripithecus moghraensisno sítio de Wadi Moghra, no Egito, assume todo o seu significado. Os resultados são publicados na revista Ciência. O exemplar limita-se a uma mandíbula inferior, mas esta apresenta uma combinação de caracteres que não corresponde a nenhum macaco conhecido deste período nesta região. Possui caninos e pré-molares particularmente desenvolvidos, molares com superfícies de desgaste arredondadas e espessas, além de uma mandíbula robusta.

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Para Hesham Sallam, paleontólogo da Universidade de Mansoura (Egito), “Faltava um pedaço da árvore do grande macaco, e o Norte da África parecia o lugar certo para encontrá-lo“. Esta mandíbula, de facto, ocupa uma posição intermédia entre as formas africanas mais antigas e as linhagens que darão origem aos hominóides modernos. A anatomia dentária sugere também uma dieta flexível, principalmente frugívora, com capacidade de consumir alimentos mais duros, como sementes ou nozes, em tempos de escassez. Este tipo de plasticidade alimentar teria constituído uma vantagem num ambiente em mudança, marcado pelo aumento da sazonalidade no Mioceno.

Uma origem norte-africana de grandes primatas?

O interesse de Masripithecus não se deve apenas à sua morfologia, mas à sua posição na árvore evolutiva. Os pesquisadores combinaram diversas fontes de dados: caracteres anatômicos de fósseis e espécies atuais, dados genéticos de grandes primatas vivos e idades geológicas para reconstruir relações de parentesco e momentos de divergência entre as diferentes linhagens.

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Veredicto: Masripithecus parece mais próximo dos grandes símios atuais do que das espécies contemporâneas conhecidas na África Oriental. Em outras palavras, as linhagens que levaram aos hominóides modernos podem não ter se originado onde eram esperadas. As análises biogeográficas apontam na mesma direção. Eles apontam o Norte da África e o Oriente Médio como uma provável área de origem do último ancestral comum dos grandes símios atuais.

Fragmento mandibular de Masripithecus moghraensis

Fragmento de mandíbula de Masripithecus moghraensis. Créditos: Hesham Sallam

Masripithecus poderia representar uma população já envolvida na diversificação dos hominídeos, pronta para se dispersar em direção à Europa e à Ásia assim que as conexões terrestres o permitissem. “Há muito que penso que o ancestral comum dos grandes símios viveu na África Oriental. Nossas novas análises desafiam seriamente essa ideia“, afirma Erik Seiffert, coautor do estudo, em nota de imprensa. O fato é que o fóssil ainda é fragmentário e uma mandíbula certamente não será suficiente para encerrar o debate.

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