
Quatro anos depois dos primeiros alertas, as injeções “ilegais” de botox ou ácido hialurónico, fora do circuito médico, continuam “em ascensão”, alertam os profissionais de saúde, preocupados com um fenómeno que se tornou “descontrolado” e escapa em grande parte à justiça.
Prometendo preencher olheiras, realinhar o nariz, preencher os lábios ou até mesmo redefinir o queixo, profissionais autoproclamados oferecem, por meio de suas redes sociais – Instagram e TikTok na liderança – injeções de botox ou ácido hialurônico, de forma totalmente ilegal.
“Só temos um rosto e temos-no para toda a vida. Não o confiem a qualquer um”, alertou na quarta-feira o Sindicato Nacional da Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética (SNCPRE), durante uma conferência de imprensa que reuniu intervenientes da saúde e do direito.
Somente cirurgiões plásticos, dermatologistas e médicos estéticos podem realizar procedimentos de medicina estética. Mas “apesar dos relatos e das medidas disciplinares e legais, este fenómeno continua a espalhar-se nas redes sociais”, lamenta o sindicato.
Em 2025, a Ordem dos Médicos recebeu 213 notificações relativas a procedimentos médicos e cirúrgicos ilegais para fins estéticos – um recorde -, e já 28 em 2026. Em 2024, as notificações foram 128, contra 123 em 2023 e 62 em 2022.
Mas “estes números continuam muito aquém da realidade observada no terreno”, tempera a Dra. Hélène Harmand-Icher, presidente da secção de saúde pública da Ordem, porque “somos apenas o último elo da cadeia”.
Se os profissionais admitem que a extensão do fenómeno é difícil de medir, o Dr. Adel Louafi, secretário-geral do SNCPRE, afirma que os cirurgiões plásticos vêem “pelo menos uma pessoa por semana sofrendo de complicações após injeções ilegais”.
“E onde reside o problema é que não existem sanções suficientes”, acrescenta.
Das denúncias de 2025, 20 deram origem a encaminhamento ao Ministério Público por exercício ilegal de medicina, nos termos do artigo 40. Desde o início de 2026, houve outras 3.
Por sua vez, o SNCPRE menciona “33 denúncias em andamento”, contra contas em redes sociais, pessoas ou centros com fins estéticos, detalha a advogada do sindicato, Me Laëtitia Fayon, à AFP.
“É um fenómeno que infelizmente continua a proliferar”, observa, lamentando que o tempo que o sistema de justiça leva para certos casos seja “muito longo, demasiado longo”.
– “Vidas sacrificadas” –
O advogado cita uma denúncia apresentada em 2022 contra o instituto de beleza de Lyon Aunessa, após a descoberta nas redes sociais de vídeos que mostram injeções dadas por não médicos e em condições que suscitam preocupações – em casa ou num apartamento.
A investigação ainda está em curso e, apesar da “acusação dos dois dirigentes” há quase um ano, eles “continuam a praticar em Lyon, mas também em Paris”, segundo Me Fayon. “Este é o caso mais surpreendente porque vemos que, durante quatro anos, nada os deteve, nem mesmo a justiça.”
E por trás das promessas de resultados imediatos e de preços aparentemente atrativos (algumas centenas de euros) escondem-se muitas vezes “perigos consideráveis”, alerta o sindicato.
Necroses, infecções graves, embolias, deformações irreversíveis, hospitalizações de emergência… “Estes riscos estão ligados à ausência ou má esterilização e também à ausência de rastreabilidade dos produtos”, em todos os casos “falsificações”, salienta o Dr. Jean-François Delahaye.
“Pode até ser água e também já tivemos casos de azeite”, afirma o cirurgião plástico.
As autoridades de saúde e o Ministério da Saúde alertaram várias vezes no ano passado sobre os riscos destas injeções ilegais, após a descoberta de vários casos de botulismo causados por estas injeções.
Oito casos notificados em Ile-de-France entre agosto e setembro de 2024 apresentaram sintomas graves, a maioria exigindo hospitalização em cuidados intensivos: dificuldade em falar ou engolir (percursos errados), dificuldade em caminhar, visão turva ou dupla, dificuldades respiratórias (exigindo traqueotomia para alguns).
Alertando para o perigo de “banalização”, os profissionais apelam à intensificação da mobilização contra as práticas não médicas, nomeadamente através do reforço dos controlos e de uma melhor coordenação entre a justiça e o sector da saúde.