
“Kanzi, onde está o suco?“O bonobo, então com 43 anos e assim chamado, aponta para um copo vazio. Porém, Kanzi não se enganou: através de sua resposta, ele demonstrou sua capacidade de representar objetos imaginários.
“A imaginação há muito é considerada uma parte essencial da natureza humana, mas a ideia de que não é exclusiva da nossa espécie é verdadeiramente revolucionária“, comenta Christopher Krupenye, pesquisador do Departamento de Psicologia e Neurociências da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), em comunicado à imprensa.
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Respostas além do acaso
Com a sua colega Amália Bastos, ofereceram a Kanzi diversos exercícios. Este bonobo é então uma verdadeira estrela para os primatologistas. Ele é notavelmente capaz de responder a instruções verbais apontando ou usando um lexigrama contendo mais de 300 símbolos, o que o torna um sujeito de escolha para este estudo.
No experimento principal, uma pessoa colocou dois copos idênticos sobre uma mesa e fingiu enchê-los usando uma jarra vazia. Então ela pegava um dos copos e fingia esvaziá-lo na jarra. Então o experimentador pediu a Kanzi que apontasse para o copo onde supostamente estava o suco.
“Se Kanzi pudesse imaginar o suco fictício, ele deveria ter escolhido, em vez de deixar o acaso decidir, o copo contendo o suco “imaginário”, ou seja, o copo vazio que não havia sido “derramado” na jarra. Foi exatamente isso que Kanzi fez. Ele selecionou o copo correto em 34 das 50 tentativas“, sublinha um estudo publicado em 5 de fevereiro de 2026 na prestigiada revista Ciência.
A mesma manipulação não era mais feita com suco, mas com uvas e caixas imaginárias. Nesse caso, o bonobo indicou corretamente a caixa que continha a uva imaginária em 70% dos casos. Os pesquisadores são claros: não pode ser um acaso.
Crédito: Universidade Johns Hopkins
Até onde vai essa imaginação?
Estas experiências provam-no: a capacidade de representar objetos imaginários não é exclusiva dos humanos. Então, “Kanzi é capaz de imaginar um objeto imaginário sabendo que não é real“, resume Amália Bastos. Observações anedóticas já tinham colocado os investigadores no rasto desta capacidade.
Um jovem chimpanzé em cativeiro foi visto parecendo arrastar pedaços de madeira imaginários. Adotou então a mesma postura e os mesmos movimentos de quando brincava com peças de madeira reais. E na natureza, as chimpanzés fêmeas às vezes brincam com paus, comportando-se como se fossem seus filhotes.
Até onde vai essa imaginação? Nos humanos, por exemplo, leva-nos a pensar sobre o nosso futuro. Este também é o caso de outros primatas? Ou será que Kanzi demonstrou principalmente capacidades únicas, que os seus pares não possuem ou não desenvolveram totalmente? Estudos futuros devem abordar essas questões.
Mas esta descoberta já parece indicar que pelo menos certos animais podem voluntariamente desligar-se da realidade e “que essa habilidade provavelmente estava ao alcance cognitivo do seu último ancestral comum com outros primatas, que viveram de 6 a 9 milhões de anos atrás“, sublinha o estudo.
Resultados que nos convidam, como indica Christopher Krupenye, a reconsiderar o que realmente torna o ser humano especial. Kanzi, por sua vez, morreu pouco depois de ajudar os pesquisadores a esclarecer uma nova faceta das habilidades dos bonobos. “O mundo perdeu um tesouro”foi então transferido para o centro de pesquisa Ape Initiative, que o hospedou. Adicionando: “Seu legado continuará a inspirar as gerações futuras a apreciar e proteger essas criaturas incríveis.“.