Nove dias depois de abrir um processo histórico de justiça climática, o advogado Akihiro Shima cantava a plenos pulmões num bar lotado de Tóquio, vestindo uma jaqueta vermelha brilhante e um chapéu iroquês.

Aos 63 anos, Shima reuniu no mês passado mais de 450 demandantes japoneses nesta ação legal sem precedentes contra o Estado japonês, acusado de inação “inconstitucional” face às alterações climáticas.

Para ele, este julgamento é “o culminar de tudo” pelo qual luta há anos, primeiro como músico, depois como advogado.

Quando o movimento punk varreu o Japão no final da década de 1970, Akihiro Shima, então adolescente, estava convencido de que iria “mudar a sociedade através do rock’n’roll”, disse à AFP.

Décadas depois, seu ardor está intacto.

Na escuridão de um pequeno bar em Tóquio, em dezembro ele cantou “Liberate Palestine!” e “Dance in the Street for Your Rights”, evocando sua mais recente batalha legal entre duas músicas.

“Há pessoas que libertam dióxido de carbono em massa por causa de estilos de vida egoístas, enquanto outras, que não vivem assim, vêem as suas ilhas ameaçadas”, disse ele ao público, acrescentando: “as gerações futuras serão as maiores vítimas”.

Kumiko Aoki, uma cuidadora de 60 anos que participou na denúncia climática, estava na plateia e achou “super fixe” o facto de “integrar mensagens claras como ‘não à guerra’ nas suas canções”.

A queixa denuncia a luta “grosseiramente insuficiente” do país contra as alterações climáticas, argumentando que esta inacção viola os direitos constitucionais dos demandantes à saúde e a uma vida pacífica.

O Japão comprometeu-se a reduzir as suas emissões em 60% até 2035 em comparação com 2013, e em 73% até 2040, com o objetivo de neutralidade carbónica até 2050.

Especialistas dizem que as chances de ganhar o julgamento são limitadas, mas isso poderia aumentar a conscientização pública.

– Tornar o clima “fresco” –

Para Akihiro Shima, essa luta faz parte de uma jornada que começou na adolescência, após a leitura de um romance japonês intitulado “Poluição Composta”, uma acusação contra abusos industriais e químicos.

Ele lembra-se de ter pensado que “enquanto continuarmos obcecados com o materialismo e o crescimento económico, o nosso planeta não resistirá”.

Ele se tornou um “radical” dentro de sua família, pressionando seus pais a mudarem seus hábitos de consumo e se engajando em outras causas, da pobreza à discriminação.

Durante muito tempo, a música foi o seu principal meio de expressão, e ele abraçou totalmente a mensagem anti-establishment do punk, chegando a posar nu com os seus amigos músicos em frente ao Parlamento Japonês para a capa de um CD como forma de protesto político.

Mas ele diz que teve uma revelação aos 41 anos: seus discursos e seu grupo “não mudaram a sociedade”.

Foi lá que decidiu voltar aos estudos, tornando-se advogado em 2010. Seu primeiro processo citou um urso polar como demandante, argumentando que o aquecimento global constitui uma forma de poluição.

Após o desastre nuclear de Fukushima em 2011, ele processou grandes fabricantes de reatores e fundou um novo grupo, Shima Kick Jiro & No Nukes Rights.

Consciente da sua idade, o Sr. Shima admite que este julgamento poderá ser o último.

“Queremos que a sociedade se pergunte em que mundo quer viver daqui a 30 anos”, diz ele.

Apesar do empenho, admite que ainda não escreveu nenhuma canção sobre o clima. “Ainda não descobri como tornar a palavra +clima+ legal”, ele sorri.

Por meio de sua denúncia, porém, ele diz que quer “tentar”.

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