Um som de discussão, um rolar pelas cortinas do palco: o travesso Valletto dá um pulo. O planalto ainda está na sombra; o quarto, na luz. É com esse fogo prometeico, roubado do público, que o ator acenderá a lanterna que tem na mão. Está escuro na sala e o show pode começar. Durante os vinte e cinco anos do longo e rico mandato de Patrick Foll (que acaba de ceder o lugar de diretor a Grégory Cauvin), o Théâtre de Caen continuou a desenvolver uma veia barroca com a cumplicidade de músicos tão essenciais como William Christie (e o seu florescimento artístico), o conjunto Correspondances de Sébastien Daucé e, claro, Le Poème harmonique de Vincent Dumestre, cujo Carnaval Barroco (regulada por Cécile Roussat) tem encantado muitas cidades desde a sua criação em 2004, na cidade da Normandia.
Fiel à sua trajetória de aventureiro, Vincent Dumestre desta vez desenterrou O velho avarode Francesco Gasparini (1661-1727), intermezzo retirado de O avarento de Molière apresentada no Teatro Sant’Angelo de Veneza em 1720. Uma daquelas curtas óperas buffas intercaladas entre os atos de série de óperamisturando personagens da mitologia com figuras da commedia dell’arte, para amenizar com uma camada cómica a densidade trágica destas obras, cuja seriedade acabou por se impor no último quartel do século XVIII.e século.
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