
O Estado alargou o défice dos hospitais públicos entre 2020 e 2024 ao subcompensar as medidas salariais nos estabelecimentos, com um défice estimado em 1,7 mil milhões de euros “no final de 2024”, segundo um relatório da Inspeção-Geral dos Assuntos Sociais (Igas) publicado na quarta-feira.
Estes encargos adicionais não financiados podem “explicar uma parte significativa do agravamento dos défices” dos estabelecimentos, indica Igas. Em 2024, o défice dos hospitais públicos foi estimado em 3,1 mil milhões de euros, recorda a Inspeção.
A maior parte do défice, ou seja, 1,1 mil milhões de euros, provém do “subfinanciamento recorrente” da evolução automática da folha salarial devido à progressão e ao envelhecimento do pessoal não médico (a “tecnicidade-velhice-derrapante” ou GVT), explica Igas.
Depois vem a subestimação das medidas salariais decididas após a Covid, incluindo o Ségur de la santé, para evitar a fuga de cuidadores dos hospitais públicos, no valor de 457 milhões de euros.
Por fim, a ausência de reavaliação do pacote remuneratório dos internos, “apesar dos sucessivos aumentos da sua remuneração e do aumento do seu quadro de pessoal”, aumentou as despesas não compensadas dos hospitais em 137 milhões de euros, indica o Igas.
Por outro lado, sobre a inflação, reiteradamente denunciada pelos gestores hospitalares, o relatório não parece detectar qualquer subcompensação, salientando que “os créditos integrados na base deverão equilibrar as despesas até 2025, o mais tardar”.
A Federação Hospitalar Francesa, que reúne os hospitais públicos franceses, saudou a “validação” por parte da Igas dos seus argumentos sobre o subfinanciamento das medidas salariais.
Por outro lado, ela lamenta que Igas continue criticado pelo subfinanciamento da inflação. “Em 2024, o FHF estimou a necessidade de compensação da inflação em 1,3 mil milhões de euros só para os estabelecimentos públicos”, lembrou.
À noite, o Ministério da Saúde estimou que o governo “já tinha assumido as suas responsabilidades” no orçamento da Segurança Social de 2026, para compensar a subcompensação das medidas salariais.
Os 850 milhões de euros acrescentados ao envelope hospitalar durante o debate parlamentar “permitem resolver esta subcompensação e abrir um novo ciclo virtuoso”, indicou o gabinete do ministro.
“Será elaborado um plano de eficiência hospitalar 2026-2029”, incluindo “uma governação territorial renovada”, indicou a mesma fonte.
Segundo o gabinete do ministro, o plano terá como base outro relatório do Igas, também publicado nesta quarta-feira, que propõe um choque organizacional ao sistema hospitalar.
Recomenda, em particular, a formação de grupos hospitalares públicos locais, reunindo vários estabelecimentos numa única estrutura.
Isto incluirá a possibilidade de “reunir funções de apoio e serviços médico-técnicos”, segundo o relatório.
O relatório sugere ainda “a aceleração do desenvolvimento dos cuidados ambulatórios e do internamento domiciliário” e “a reorganização territorial da prestação de cuidados para garantir uma melhor gradação”.