Nada foi mais prejudicial para a recepção do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993) do que ter sido reduzido aos seus mestres (Heidegger, entre outros), aos seus companheiros de viagem (em particular Hannah Arendt) ou mesmo à sua “actualidade” (como um pensador que antecipa a ecologia). A reedição de Fenômeno da vida corrige utilmente esta imagem e finalmente a coloca na constelação de importantes filósofos que, no século XXe século, viveram na carne a experiência do exílio, da mudança forçada de língua (do alemão para o inglês) e tiveram que pensar no colapso do mundo da sua juventude.
Tal como Hannah Arendt (1906-1975), com quem manteve uma amizade tempestuosa, Hans Jonas foi primeiro um discípulo admirador e depois crítico de Martin Heidegger (1889-1976), em cujo seminário participou ativamente em Freiburg im Breisgau (Alemanha). Nascido em família tradicionalista, bom conhecedor de textos judaicos, Jonas surpreendeu Heidegger ao pedir desculpas pela ausência por participação em um congresso sionista. Expulso da Alemanha pelo nazismo – a sua mãe será assassinada em Majdanek, como ele evoca na sua comovente e poderosa Conceito de Deus depois de Auschwitz (1984; Rivages, 1994) – ingressou na Palestina Obrigatória e, na Itália e na Baviera, combateu de armas nas mãos a Alemanha de Hitler, na Brigada Judaica, formação integrada no exército britânico. Depois de participar da guerra de independência de Israel em 1948, mudou-se para o Canadá e depois para Nova York, onde lecionou na New School for Social Research até se aposentar.
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