Há um ano, o retorno à atmosfera de parte de um foguete da SpaceX criou uma bola de fogo espetacular no céu europeu, encantando os astrônomos amadores e levando os cientistas a analisar o evento.

Num estudo publicado quinta-feira, a equipa liderada por cientistas alemães revelou ter conseguido provar pela primeira vez que este tipo de reentrada na alta atmosfera gerava poluição.

Os investigadores sublinham a importância vital de saber mais sobre esta forma pouco conhecida de poluição, dado o impressionante número de satélites que serão lançados em órbita nos próximos anos.

“Estávamos entusiasmados por testar o nosso equipamento e, esperávamos, poder medir o rasto de detritos”, recordaram Robin Wing e Gerd Baumgarten, do Instituto Leibniz de Física Atmosférica, numa troca de e-mail com a AFP, recordando as primeiras horas de 19 de fevereiro de 2025, quando o estágio superior do foguete Falcon 9 entrou na atmosfera.

A equipa quis sobretudo saber mais sobre esta poluição que afecta a “ignorosfera”, esta região pouco conhecida da atmosfera, entre os 50 e os 100 km de altitude, e que inclui a mesosfera e a parte inferior da termosfera.

– “Visualização”

A equipe utilizou uma tecnologia chamada LIDAR, que mede elementos da atmosfera emitindo diversos pulsos de laser e observando quais deles retornam.

Eles registraram um aumento repentino de lítio, um metal, na atmosfera, que foi 10 vezes maior do que a taxa normalmente observada a cerca de 100 quilômetros de altitude.

Foto divulgada pelo Instituto Leibniz de Física Atmosférica, 19 de fevereiro de 2026, mostrando três lasers verdes medindo ventos e temperaturas na estratosfera e mesosfera no Instituto Kuhlungsborn, 30 de novembro de 2023 na Alemanha (Instituto Leibniz de Física Atmosférica/AFP - Gerd Baumgarten)
Foto divulgada pelo Instituto Leibniz de Física Atmosférica, 19 de fevereiro de 2026, mostrando três lasers verdes medindo ventos e temperaturas na estratosfera e mesosfera no Instituto Kuhlungsborn, 30 de novembro de 2023 na Alemanha (Instituto Leibniz de Física Atmosférica/AFP – Gerd Baumgarten)

Os investigadores conseguiram então mostrar que este rasto de lítio tinha sido criado pelo estágio superior do foguetão Falcon 9 quando este reentrou na atmosfera, excluindo cientificamente qualquer outra possibilidade.

O estudo mostra assim que, pela primeira vez, é possível medir e estudar a poluição gerada pelos foguetes nestas altitudes elevadas, antes de se dispersarem, acrescentam os investigadores.

Mas o impacto da poluição gerada pelas reentradas nos foguetes permanece desconhecido, acrescentam.

“O que sabemos é que uma tonelada de emissões a 75 km de altitude equivale a 100 mil toneladas na superfície” da Terra, indicam. E o exemplo deste foguete Falcon 9 é apenas uma “antecipação” da poluição que virá nos próximos anos.

Atualmente, 14 mil satélites ativos orbitam nosso planeta. Mas no mês passado, a SpaceX solicitou permissão para lançar mais um milhão. E a China, apenas duas semanas antes, anunciou o lançamento de 200 mil satélites próprios nas próximas décadas.

O estudo publicado esta quinta-feira “é realmente importante porque atualmente não existem regulamentações adequadas destinadas à poluição das camadas superiores da atmosfera”, sublinha à AFP Eloïse Marais, professora de química atmosférica na University College London, que não participou no estudo.

“Mesmo que estas partes da atmosfera estejam longe de nós, podem ter consequências significativas para a vida na Terra se a poluição gerada afectar o clima da Terra e esgotar a camada de ozono que nos protege dos nocivos raios UV”, explica ela.

O estudo foi publicado na revista Communications Earth & Environment.

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