“Bocejar na hora de dormir tem a mesma função que bocejar ao acordar?”Marc Deforche nos pergunta em nossa página no Facebook. Esta é a nossa pergunta do leitor da semana. Obrigado a todos pela sua participação.

Por que bocejamos? Universal, observável desde a vida fetal e partilhado por quase todos os vertebrados (com a notável excepção da girafa), o bocejo permanece… um mistério biológico! Sua função precisa ainda escapa aos pesquisadores, como escrevemos em artigo anterior em Ciência e Futuro.

Bocejar, um reflexo antigo e profundamente enraizado

O bocejo aparece muito cedo: a partir da 12ª semana de vida no úterosegundo trabalho holandês publicado em 1982. Nesta fase, é ainda mais comum do que em adultos. Este comportamento, notavelmente estereotipado, caracteriza-se por uma sequência precisa: uma inspiração lenta, uma breve pausa, depois uma expiração passiva acompanhada de um alongamento generalizado que mobiliza mais de cinquenta músculos: da face ao tórax, por vezes até aos braços durante a “pandiculação”.

Ou seja, bocejar não é apenas abrir a boca: é uma verdadeira coreografia corporal que envolve o sistema respiratório, muscular e nervoso.

Um regulador de vigilância?

Durante séculos, uma ideia simples dominou: bocejamos para melhor oxigenar o cérebro. Já no século XVIII, o médico Johannes de Gorter defendeu esta hipótese. Mas foi rigorosamente refutado em 1987 pelo neurobiólogo americano Robert Provine: alterar a quantidade de oxigénio ou dióxido de carbono no ar não aumenta a frequência dos bocejos. O corpo, portanto, não boceja para compensar a falta de oxigênio.

Hoje, a hipótese mais forte é a de um papel na regulação da excitação. O biólogo Andrew Gallup propõe que o bocejo serve para estimular o estado de alerta, principalmente em animais que vivem em grupos. Nessa perspectiva, o bocejo sinalizaria um estado de cansaço para os outros indivíduos, incentivando-os a estarem mais atentos aos perigos. Esse mecanismo também explicaria o famoso “contágio” do bocejo, descrito em 1889 pelo neurologista Jean-Martin Charcot. Mais do que um simples reflexo individual, o bocejo poderia, portanto, desempenhar um papel social, quase como um alarme coletivo.

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Um fenômeno ainda mal localizado no cérebro

Outros investigadores, como o médico francês Olivier Walusinski, apresentam uma ideia complementar: o bocejo funciona como um acelerador de transição entre diferentes estados de vigilância. Ocorreria quando a nossa atenção diminuísse (por exemplo, ao adormecer, ao acordar ou após uma refeição) para nos “reconectarmos” ao nosso ambiente. Esta hipótese baseia-se na presença, no fluido cerebral, das chamadas moléculas hipnogênicas (promovendo o sono). Bocejar pode reduzir temporariamente a concentração local, tornando mais fácil permanecer acordado. No entanto, este mecanismo ainda precisa ser demonstrado experimentalmente.

O paradoxo é impressionante: embora o bocejo envolva claramente o cérebro, nenhuma “zona do bocejo” foi identificada até o momento. Várias estruturas estão envolvidas (nomeadamente o hipotálamo, o tronco cerebral e vários neurotransmissores, como a dopamina ou a oxitocina), mas a sua coordenação exacta permanece obscura. No entanto, trabalhos recentes em ratos revelaram novas ligações entre regiões ligadas às emoções e ao stress, sugerindo que o bocejo também pode ser influenciado pelo nosso estado emocional.

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Um gesto útil… e às vezes revelador

O bocejo ocorre com mais frequência em situações mundanas: fadiga, tédio, transição sono-vigília. Mas também pode estar associada a certas patologias (acidente vascular cerebral, enxaqueca, epilepsia) ou à toma de medicamentos, nomeadamente certos antidepressivos. Paradoxalmente, também tem virtudes: promove relaxamento e concentração. Atletas e artistas usam-no voluntariamente antes de uma apresentação para liberar tensão e melhorar a atenção, mesmo que não seja para “oxigenar o cérebro”, como ainda se acredita.

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