Pequenos vírus entram em outros vírus para entrar e infectar uma célula. Para sua grande surpresa, os investigadores acabaram de observar este mecanismo até então inédito.
“Os deltavírus são transmitidos através de um cavalo de Troia viral”, anuncia um estudo publicado sexta-feira na Cell, uma das mais prestigiadas revistas de biologia, e liderado por pesquisadores do CNRS.
O que são esses deltavírus? Vírus minúsculos, que são incapazes de infectar uma célula por conta própria e que por isso precisam da ajuda de outros vírus com estrutura mais clássica e complexa. Eles fazem parte de “vírus satélites”.
Nos humanos, estamos familiarizados principalmente com o vírus da hepatite D. Esta infecção hepática particularmente grave afecta apenas pacientes já afectados por outro vírus, o da hepatite B.

Porém, nos últimos anos, foram descobertos em animais vários vírus com estrutura semelhante à da hepatite D, que não infectam apenas o fígado. É a família dos deltavírus.
O estudo Cell, liderado pelo virologista Joe McKellar, analisa como esses vírus funcionam.
Como eles usam outros vírus para circular e entrar em uma célula? Deslizando para dentro, conforme ilustrado por imagens impressionantes de diversas técnicas de microscopia de ponta. Embalados desta forma, os deltavírus ficam incorporados na célula que eventualmente será infectada.
“Nunca vimos um vírus que entra em outro vírus. Era inimaginável antes de o visualizarmos”, entusiasma-se o virologista Karim Majzoub, que supervisionou este trabalho, à AFP.
– carona viral –
Até agora, apenas um outro mecanismo foi identificado para explicar como os deltavírus exploram outros vírus. Às vezes, eles simplesmente pegam emprestada uma proteína crucial para entrar na célula.

O estudo de sexta-feira mostra que estes minivírus não apenas pedem emprestada uma chave, mas também “pegam boleia”, nas palavras de Majzoub, uma técnica que provavelmente reforça as suas capacidades infecciosas.
“O deltavírus entra noutro vírus, agacha-se, espera. Mas só precisa disto para se transportar para uma célula”, explica Majzoub. Ao chegar ao destino, é capaz de operar de forma independente.
Atualmente, esta descoberta não tem implicações para a saúde humana. Na verdade, os investigadores apenas estudaram, em laboratório, vírus identificados em animais, e não o da hepatite D, embora Majzoub pareça confiante na existência de um mecanismo semelhante.

No entanto, esta investigação permite-nos compreender melhor a circulação destes vírus, que podem causar patologias graves. Cobras infectadas com um deltavírus no cérebro, por exemplo, param de se mover, claramente afetadas por distúrbios neurológicos.
Os investigadores levantam a hipótese de que este “cavalo de Tróia” viral facilitaria a passagem de minivírus de uma espécie para outra.
O estudo mostra, de facto, que o mesmo deltavírus pode, sem discriminação, ser introduzido em três vírus muito distintos: o vírus VSV, típico da pecuária, um vírus de cobra e até o vírus do herpes humano.

Por outras palavras, um deltavírus poderia saltar de um animal para outro, alterando o vírus que serve como meio de transporte.
Com possíveis consequências para o ser humano? Majzoub levanta cautelosamente a hipótese de que as infecções cerebrais por deltavírus poderiam explicar certas demências.
Mas, admite, isto permanece altamente especulativo, enquanto os deltavírus quase nunca foram detectados em humanos fora do fígado, tendo um caso raro sido registado há alguns anos nas glândulas salivares. Portanto, nesta fase, não existem provas que estabeleçam uma ligação com uma patologia humana que não seja a hepatite.