Muitas vezes duvidamos da real longevidade das instalações fotovoltaicas. Porém, o desmantelamento de uma central solar com mais de vinte anos afasta ideias pré-concebidas: com uma eficiência ainda superior a 85%, a tecnologia revela-se muito mais robusta do que o esperado. Mas um obstáculo económico inesperado ameaça mandá-los directamente para o triturador. Explicações.

Os 8 painéis solares Anker Solix IBC 455 W // Fonte: Vincent Sergère para Frandroid

Investir numa instalação fotovoltaica levanta logicamente a questão da sua real sustentabilidade. Se os fabricantes comunicarem sobre a vida útil teórica, os dados empíricos medidos ao longo de várias décadas revelam-se valiosos para avaliar a rentabilidade de tal projeto.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil, acaba de apresentar as conclusões de um experimento em escala real em módulos multicristalinos implantados no ano 2000. Após mais de vinte anos de serviço em um ambiente exigente, os dados relativos à conservação dos rendimentos destacam uma tecnologia particularmente robusta.

Deterioração muito mais lenta do que o esperado

O estudo, publicado na revista científica Solar Energy Advances, baseia-se no desmantelamento de uma usina solar isolada inicialmente instalada em uma ilha da costa atlântica brasileira. Após 22 anos de operação, os painéis foram repatriados, inspecionados e depois reinstalados no sul do país para mais dois anos de testes em condições reais.

O veredicto é claro: os módulos restantes mantiveram uma taxa de desempenho ajustada às condições climáticas de 85,3%. Este valor ultrapassa o limite de 80% da capacidade inicial garantida pelo fabricante após vinte anos. A equipe de pesquisa enfatiza em seu relatório que “ os resultados demonstram que os módulos fotovoltaicos de segunda vida podem operar com segurança e eficiência após o descomissionamento e mais de duas décadas após a fabricação “.

Em detalhe, as medições revelam um envelhecimento extremamente lento do silício. Segundo o estudo, a taxa de degradação anual é de 0,7% para o sistema ligado à rede, e cai mesmo para uma média de 0,4% para os painéis testados individualmente. Estes valores permanecem significativamente inferiores à queda de desempenho de 1% ao ano prevista pela garantia implícita do fabricante no momento da sua concepção.

Esta resistência ao tempo não é um caso isolado, uma vez que observações europeias realizadas em módulos a partir da década de 1980 mostram pequenas quedas de eficiência após três décadas de produção. É importante ressaltar que os painéis brasileiros do experimento sofreram insolação e temperaturas muito mais intensas do que observamos em nossas latitudes europeias, acumulando assim um número colossal de horas de operação a pleno sol.

O desafio económico da segunda vida face a um novo mercado agressivo

Embora a confiabilidade técnica a longo prazo tenha sido demonstrada, a adoção em larga escala de painéis usados ​​continua complexa. De toda a frota desmontada no Brasil, quase um terço dos módulos teve que ser sucateado devido a danos físicos ligados ao meio ambiente ou ao manuseio.

Acima de tudo, a reutilização destes equipamentos em segunda mão enfrenta uma feroz concorrência industrial. Mesmo que os consumidores possam por vezes duvidar das promessas do sector quando estudos mostram que as garantias de desempenho nem sempre são infalíveis em certas tecnologias modernas, o novo mercado é hoje ultra-dominante.

Os novos painéis são vendidos a preços particularmente baixos e oferecem uma potência por metro quadrado muito superior às referências do ano 2000. A disparidade tecnológica e de preços deverá tornar-se ainda mais pronunciada no futuro, uma vez que a próxima geração de painéis solares promete preços mais baixos aliados a uma eficiência ainda maior.

Face a esta queda contínua dos custos dos novos equipamentos, a inspecção, certificação e recondicionamento de painéis antigos revelam-se paradoxalmente difíceis de rentabilizar. Os investigadores alertam para esta realidade económica ao especificar na sua publicação que “ um grande obstáculo é a falta de protocolos de teste padronizados e critérios de aceitação para reutilização “.

Acrescentam que é essencial desenvolver procedimentos de verificação rápidos e baratos após a desmontagem, para garantir a segurança eléctrica sem explodir o preço de revenda. Até que este setor da reutilização esteja estruturado e beneficie de possíveis incentivos financeiros de apoio à economia circular, a gestão do fim de vida está sobretudo orientada para a destruição e recuperação de materiais, sabendo-se que a reciclagem de painéis fotovoltaicos é já uma realidade industrial bem estabelecida e capaz de processar grandes volumes.

Em última análise, esta experiência sul-americana confirma que a tecnologia solar multicristalina envelhece extremamente bem, com eficiências que permanecem felizmente acima de 85% após um quarto de século de serviço intensivo. Tecnicamente, um painel usado é totalmente capaz de fornecer eletricidade de forma estável e segura durante uma segunda vida. O desafio da indústria solar nos próximos anos já não será, portanto, provar a robustez intrínseca das células, mas sim encontrar um modelo económico viável para a revenda destes módulos usados, evitando assim o esmagamento prematuro de equipamentos perfeitamente funcionais.


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