TEMEmbora os discursos de rejeição continuem a ganhar terreno e os conflitos se agravem no Médio Oriente, declarações recentes dos Estados Unidos afirmaram que o Islão não tem lugar nas sociedades ocidentais.

Em França, país cuja história é moldada pela pluralidade de convicções e pelo ideal republicano, tal visão é inaceitável. A questão não é se o Islão pertence ou não à sociedade francesa: milhões de cidadãos muçulmanos já participam na vida do país, em todas as suas dimensões sociais, económicas, culturais e intelectuais. A verdadeira questão é compreender como a tradição religiosa muçulmana se enquadra no quadro dos princípios republicanos e como esse diálogo pode ser aprofundado.

É neste espírito que a Grande Mesquita de Paris iniciou um trabalho colectivo de reflexão sobre a adaptação da tradição religiosa muçulmana ao contexto da República. O objectivo desta abordagem é simples: mostrar como os muçulmanos que vivem no Ocidente podem combinar a fidelidade aos princípios imutáveis ​​da sua fé com a adaptação às realidades sociais, jurídicas e culturais das sociedades em que vivem. Longe de ser uma tensão insolúvel, esta articulação constitui uma responsabilidade moral e cívica.

Fé e razão

A tradição intelectual do Islão há muito oferece as ferramentas para pensar sobre esta relação entre fé e razão. No século XII, o filósofo Averróis [1126-1198] já afirmou que a verdade não pode estar em contradição com a fé: quando a razão humana traz à luz uma nova realidade, a interpretação dos textos religiosos deve ser iluminada por este conhecimento. Antes dele, o filósofo Al-Ghazali [mort en 1111] lembrou-nos que a dúvida e o exame crítico são caminhos para uma fé mais profunda. Esta tradição de interpretação e reflexão constitui um dos fundamentos do pensamento muçulmano.

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