Ao longo da costa brasileira, a mata atlântica (“mata atlântica” em português) ocorre em múltiplos ecossistemas: florestas tropicais úmidas e secas, savanas, planícies, montanhas. Este bioma abriga uma fauna muito rica, incluindo mais de 850 espécies de aves, 270 espécies de mamíferos e 370 espécies de anfíbios.

No entanto, dos 1,3 milhões de km² que cobria originalmente, apenas um terço da sua superfície permanece. As plantações de goiaba, o cultivo de soja, a criação de cavalos e o desenvolvimento residencial têm sido as principais causas deste desmatamento massivo, que levou à queda da biodiversidade e à substituição da vida selvagem pela presença humana.

Confrontados com esta mudança nas potenciais fontes de alimento, os biólogos interessaram-se pela forma como os mosquitos se adaptam. Embora esses insetos já tenham se alimentado de uma grande variedade de hospedeiros, eles parecem estar se voltando mais para os humanos para satisfazer sua sede de sangue, de acordo com um novo estudo publicado na revista. Fronteiras em Ecologia e Evolução.

“Mosquitos capturados mostram clara preferência por sangue humano”

Esta investigação foi realizada em duas etapas: primeiro a captura de um grande número de mosquitos, depois a análise da sua última refeição.

Pesquisadores brasileiros instalaram, portanto, armadilhas luminosas em duas reservas naturais no estado do Rio de Janeiro, a reserva de Sítio Recanto e Reserva do Rio Guapiacu, ambos localizados na Mata Atlântica. As armadilhas foram posicionadas perto de corpos de água estagnada ao entardecer, para maximizar as chances de serem capturadas. Eles capturaram mais de 1.700 mosquitos pertencentes a 52 espécies, 145 dos quais eram fêmeas ainda cheias de sangue.

De volta ao laboratório, os pesquisadores examinaram o sangue presente no estômago dessas fêmeas de mosquitos. Eles compararam o DNA sanguíneo com marcadores genéticos específicos de cada espécie de vertebrado, para identificar o animal picado.

Os resultados são inequívocos: um anfíbio, seis aves, um canino, um rato… e uma esmagadora maioria de humanos. “Ficamos surpresos, ainda esperávamos mais sangue animal, principalmente de primatas não humanos, que são os alvos favoritos”.confiado a Ciência e Futuro Dr. Sérgio Lisboa Machado, imunologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coautor do estudo.

Embora alguns mosquitos apresentem “refeições mistas”,“Demonstramos aqui que as espécies de mosquitos capturadas nos remanescentes da Mata Atlântica têm uma clara preferência pelo sangue humano”.explica o médico Jerônimo Alencar, biólogo do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e também coautor do estudo.

“A disponibilidade e proximidade dos anfitriões são fatores determinantes”

É uma preferência de sabor? “Embora algumas espécies de mosquitos possam ter preferências inatas, a disponibilidade e proximidade do hospedeiro são fatores extremamente determinantes. continua Dr. Alencar. “Sem recursos suficientes, os mosquitos são forçados a procurar novas fontes de sangue. Eles acabam se alimentando mais de sangue humano por conveniência, já que somos seus hospedeiros mais frequentes nessas áreas”.insiste Dr. Machado.

Devido à perda do seu habitat, a vida selvagem, e mais particularmente os vertebrados, estão a deslocar-se para as regiões mais preservadas. Mas os mosquitos, cuja distância de voo é restrita a alguns quilômetros, ficam perto do local de nascimento.

Além dos transtornos causados ​​pelas picadas, essa tendência traz grandes problemas de saúde pública. Doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, febre amarela, vírus Zika ou chikungunya, estão particularmente presentes no território brasileiro. “Esta preferência por humanos aumenta consideravelmente o risco de transmissão de patógenos”.acrescenta Dr. Machado.

Enquanto os mosquitos Haemagogus janthinomys geralmente são encontrados no topo das árvores, onde vivem os macacos, observamos eles um ou dois metros acima do solo, na altura humana. Portanto, parecem ter adaptado o seu comportamento para sobreviver e alimentar os seus ovos. No entanto, esses mosquitos são vetores da febre amarela“, preocupa o pesquisador.

Maior exposição a patógenos

Por enquanto, esta pesquisa deve ser repetida em outros setores da mata atlântica, principalmente nas áreas mais isoladas, para determinar se as populações da borda da floresta estão mais expostas a picadas e, portanto, mais expostas ao risco de epidemias.

Se for este o caso, este trabalho poderá ajudar a desenvolver estratégias eficazes de controlo contra espécies de mosquitos transmissores de doenças. “O objetivo é entender melhor o comportamento dos mosquitos, como eles buscam e selecionam seus alimentos e como se reproduzem. No longo prazo, isso pode levar a ações preventivas, como restringir o acesso humano às florestas ou até mesmo reconstituir a cobertura florestal”, conclui o Dr. Machado.

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