
Numa longa caverna escavada na Antártica, várias pessoas estão ocupadas armazenando dezenas de caixas de gelo de montanha da Europa, um “santuário” inaugurado quarta-feira e destinado às futuras gerações de cientistas prontos para desvendar os mistérios do passado.
Com 35 metros de comprimento, 5 metros de altura e 5 metros de largura, este túnel escavado sob 9 metros de neve acolheu o gelo das montanhas europeias em dezembro, poucas semanas antes da inauguração oficial deste “santuário de arquivos glaciares” situado a 3.200 metros de altitude.
As últimas caixas, com cerca de um metro de comprimento e 40 cm de largura, foram colocadas ao vivo na quarta-feira neste local, o primeiro do género no mundo, durante uma conferência online com jornalistas de todo o mundo.
“É um grande dia para nós, pois na verdade trabalhamos neste projeto há quase dez anos”, comemora Anne-Catherine Ohlmann, diretora da fundação Ice Memory que deu origem à iniciativa, em entrevista à AFP.
– -52 graus –
Os primeiros gelos a fixarem-se nesta caverna a cerca de -52 graus são os do Col du Dôme, no maciço do Mont Blanc, cuja amostra foi perfurada em 2016, e o cume do Grand Combin, nos Alpes suíços, visitado no ano passado.
Este gelo de 1,7 toneladas foi armazenado em caixas refrigeradas a -20 graus e transportado a bordo de um quebra-gelo italiano entre outubro e dezembro, altura em que se atravessam os mares e oceanos da Europa até ao Pólo Sul.
Outros se seguirão em breve, tendo a Ice Memory já participado em várias perfurações, nomeadamente no Cáucaso, nos Andes, e no Tajiquistão, no maciço Pamir, onde a 5.810 metros de altura foram retirados dois testemunhos de aproximadamente 105 metros cada, em Setembro, então na presença de um jornalista da AFP.
Graças à profunda perfuração cilíndrica, estas camadas de gelo compactadas ao longo de séculos, talvez milénios, podem fornecer informações sobre a queda de neve, as temperaturas, a atmosfera e a poeira do passado.
“Imagine um pesquisador asiático em 2090 que descubra uma substância que serve como um novo e preciso indicador da atividade das monções. Ele poderia medi-la em um núcleo de gelo e voltar no tempo”, detalhou Thomas Stocker, físico climático e presidente da Ice Memory Foundation, durante a conferência.
– Séculos antes de derreter –
A estação franco-italiana da Concórdia onde está localizado este santuário está hoje muito protegida do aquecimento global e do derretimento da neve, a 1.000 km da costa e com temperaturas que não aumentam, especifica a fundação Ice Memory.
“Estimamos que ainda temos pelo menos décadas, até séculos, antes que cheguemos a um ponto em que as nossas cenouras derretam”, afirma Anne-Catherine Ohlmann, à frente do projeto lançado em 2015, nomeadamente pelo CNRS, pela Universidade Ca’ Foscari de Veneza, e pelo Instituto Suíço Paul Scherrer, e financiado pela Fundação Príncipe Alberto II.
O suficiente para constituir uma reserva quando milhares de glaciares desaparecerem todos os anos nas próximas décadas devido ao aquecimento global de origem humana, concluiu um estudo publicado em Dezembro na revista Nature Climate Change.
O ano de 2025 foi também o terceiro ano mais quente alguma vez registado no mundo, anunciaram esta quarta-feira o Observatório Europeu Copernicus e o Instituto Americano da Terra de Berkeley, para os quais 2026 deverá manter-se em níveis historicamente elevados.
Ao saudar esta “primeira no mundo”, Anne-Catherine Ohlmann afirma que a fundação “precisa (…) das nações, precisamos que as agências das Nações Unidas nos substituam, ou mesmo assumam o comando desta governação a muito longo prazo”.
“Esta parte da governação é mais delicada porque hoje percebemos que não existe um quadro legal em que possamos subscrever”, continua, afirmando que “tudo isto continua em aberto”.