euA tentação é forte. Perante uma teocracia que oprime as mulheres, aprisiona os seus jovens, executa os seus opositores e projecta pela força a sua influência nociva em toda a região, a ideia de ver o regime iraniano vacilar desperta apoio instintivo. Muitos iranianos, em todo o mundo e no país, acolhem os ataques israelo-americanos com imenso alívio, misturado com grande esperança. Mas se a indignação moral face a uma ditadura feroz é legítima, não nos isenta de pensar nas consequências desta intervenção, tão brutal quanto unilateral. Para evitar que repitamos os mesmos erros.
Porque a história contemporânea é surpreendentemente consistente: não se cria uma democracia com ataques aéreos, por mais poderosos que sejam. Desde 1945, as mudanças de regime impostas principalmente pela força externa raramente produziram outra coisa senão a destruição do Estado existente, seguida por um longo período de instabilidade, se não de caos. Podemos derrubar um poder. Podemos decapitá-lo. Mas transformar fundamentalmente uma sociedade política é uma tarefa muito mais complexa, que obviamente exigirá muito mais do que ataques aéreos.
O Iraque continua a ser o precedente mais pesado. Em 2003, a derrubada de Saddam Hussein abriu uma nova era no Médio Oriente. Acima de tudo, causou o colapso do aparelho de Estado, uma guerra civil sectária e a ascensão da organização Estado Islâmico, cuja barbárie reconfigurou toda a região. A Líbia oferece outra lição amarga. A intervenção contra Muammar Gaddafi [tué en 2011] pôs fim a um regime autoritário, mas não provocou a emergência de um Estado estável. Quinze anos depois, o país continua dividido em dois, caótico, contestado por milícias e potências estrangeiras. Quanto ao Afeganistão, vinte anos de compromisso internacional não impediram o regresso dos Taliban. Os exemplos convergem. O que chamamos de “mudança de regime” – isto é, uma estratégia que visa substituir, através da intervenção externa, um regime por outro, supostamente mais consentâneo com os seus interesses – na realidade resultou na destruição do regime sem uma reconstrução sólida de um Estado viável, a fortiori democrático.
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