
Até agora, a prática de enfermagem baseava-se em grande parte numa lista de procedimentos com quase 20 anos, realizados mediante prescrição prévia. O decreto rompe com essa lógica exclusivamente executória. Afirma que o enfermeiro já pode iniciar o cuidado no seu campo de atuação, seja ele preventivo, educativo, curativo, relacional ou destinado ao acompanhamento clínico. Por outras palavras, podem cuidar diretamente de um paciente no âmbito da sua própria função, sem esperar sistematicamente por uma receita. Atualização com Alain Desbouchages.
Ciências e o Futuro: A lei aprovada em 2025 e o decreto de 26 de dezembro de 2025 marcam uma virada para a profissão de enfermagem?
Alain Desbouchages: Sim, claramente. A lei de 2025 representa uma oportunidade para a profissão. O decreto de 26 de dezembro confirma o espírito do texto: reconhece plenamente o papel autônomo dos enfermeiros. Estamos nos afastando de um modelo centrado apenas na execução de atos prescritos. O sistema de saúde atravessa um contexto difícil, com problemas de acesso aos cuidados. Mas continuamos optimistas: coisas importantes estão a acontecer. O objectivo é claro: melhorar o acesso aos cuidados através da coordenação.
O que significa esta mudança de paradigma em termos concretos?
Não entramos mais no sistema de saúde como antes. O médico não é mais a única porta de entrada porque o paciente recorre a outros profissionais de saúde quando deseja. Existe agora uma noção real de orientação e reorientação. O acesso direto torna-se uma alavanca. Isso também contribui para a reorganização de emergências. Não existe deserto de enfermagem. Os enfermeiros estão presentes nos territórios. Foi necessário reconhecer competências e garantir ações que já são realizadas no terreno. Esta é uma renovação do modelo.
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A consulta de enfermagem é uma das grandes novidades. Como você define isso?
A consulta de enfermagem formaliza o nosso papel autônomo. Diz respeito aos enfermeiros liberais, bem como à prática institucional. Destina-se nomeadamente a pacientes que sofrem de doenças crónicas, monitorização de feridas, diabetes, vacinação, nomeadamente gripe. Também possibilita ampliar a cobertura vacinal com a entrega das vacinas no consultório. É uma ferramenta estruturante que fornece uma estrutura clara para a nossa experiência.
“A coordenação hospital-cidade deve ser fortalecida”
Aguardam-se dois pedidos. O que eles deveriam especificar?
Estão previstas duas ordens de execução antes de junho de 2026. A primeira dirá respeito a procedimentos e cuidados. Especificará o papel autónomo, o papel preventivo e o papel da saúde pública. A segunda dirá respeito à prescrição. Regulamentará a possibilidade de prescrição de determinados produtos e exames.
Exatamente, o que essas novas habilidades de prescrição cobrem?
Hoje, muitos procedimentos estão condicionados à prescrição: exames de sangue, exames, análises, radiologia. Estas barreiras serão ajustadas dentro de um quadro regulamentar. Falamos também sobre o manejo da dor, com analgésicos de nível 1, e a realização de avaliações biológicas comohemoglobina glicada (um dos marcadores de diabetes) ou a adaptação de doses para pacientes diabéticos.
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A coordenação parece fundamental para esta reforma.
Sim, este é um ponto chave. A coordenação hospital-cidade deve ser fortalecida. Precisamos de fluidez, rastreabilidade, troca clara entre profissionais. Quando um enfermeiro identifica um sinal clínico, ele deve ser capaz de organizar, coordenar e rastrear. Isto supõe um grau reforçado de confiança entre os profissionais.
Como esses desenvolvimentos foram construídos?
Houve um trabalho de consulta com o ministério, a Ordem, organizações profissionais, em particular o CNPI (Conselho Nacional de Enfermagem Profissional). Novas habilidades foram discutidas. Permanece a questão do apoio, especialmente no hospital, e da formação contínua. O acesso direto e o desenvolvimento de competências devem ser organizados e seguros.
Podemos falar de uma nova etapa para a profissão?
Sim. Esta lei e o seu decreto de implementação abrem uma nova etapa. A atuação autônoma, a consulta de enfermagem, a prescrição supervisionada, a ampliação da vacinação: tudo isso contribui para o reconhecimento do nosso lugar no sistema de saúde. É agora uma questão de pôr as coisas em movimento e dar vida a esta reforma na prática diária da saúde.