A cimeira de líderes mundiais sobre o clima continua sexta-feira em Belém, Brasil, depois de um primeiro dia marcado por discursos grosseiros sobre o fracasso em conter o aquecimento, mas ofensivos para o futuro, inclusive contra a indústria petrolífera.
Dezenas de ministros e alguns chefes de estado e de governo, incluindo os de Espanha, Alemanha e Namíbia, ainda desfilarão no pódio. Então, na segunda-feira, duas semanas de negociações anuais muito pesadas começarão na conferência da ONU em Belém – a primeira COP na Amazônia.
Forçados a conciliar os seus discursos com o facto de os últimos 11 anos serem os 11 mais quentes alguma vez medidos, e confrontados com o terrível número de furacões e ondas de calor, a ONU e os chefes de estado e de governo tiveram de enfrentar os factos na quinta-feira, na abertura da COP30.
Admitiram que o mundo não conseguiria permanecer abaixo dos 1,5°C de aquecimento, o limite mais ambicioso incluído no acordo de Paris há dez anos, mas sem se resignar aos 2°C, o outro limite então negociado.
O clima de crise, reforçado pela ausência dos líderes dos maiores poluidores, a começar pelo presidente norte-americano Donald Trump, é, no entanto, propício a liminares de remobilização.
Dois anos após a adopção sem precedentes no Dubai de um compromisso geral de eliminação gradual dos combustíveis fósseis, certos países recusam-se a permitir que o mundo se afaste do problema climático.
Aplaudiram uma frase do anfitrião desta COP, Luiz Inácio Lula da Silva, que no seu discurso de abertura apelou a um “roteiro” para “superar a dependência dos combustíveis fósseis”.
– “Gases fósseis tóxicos” –

Entre estes países estão os europeus e muitas pequenas ilhas cujo futuro está ameaçado pela intensificação dos ciclones e pela elevação dos oceanos.
O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, nas Caraíbas, Gaston Browne, irritou-se contra “os grandes poluidores (que) continuam a destruir deliberadamente os nossos ambientes marinhos e terrestres com os seus gases fósseis tóxicos”.
A saída do petróleo está a regressar a muitos europeus. Apesar das suas recentes divisões, orgulham-se de reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa durante mais de três décadas e de visarem -90% até 2040.
Cada país deve “desenvolver a sua estratégia para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis”, apelou o presidente francês, Emmanuel Macron.
– “Não é fácil” –

O “roteiro” de Lula sobre combustíveis fósseis é interpretado como “um sinal claro das prioridades do Brasil para a COP30”, segundo Katrine Petersen, do think tank E3G.
“Não necessariamente nas negociações oficiais, mas na agenda de ações voluntárias” que as acompanha, disse à AFP Marta Salomon, do think tank brasileiro Instituto Talanoa.
Mas o país anfitrião da cimeira está a debater-se, tal como outros, com as suas próprias contradições: o Brasil acaba de embarcar na exploração de petróleo ao largo da costa da Amazónia, para grande consternação dos ambientalistas.
Terça-feira, durante entrevista a agências de imprensa, incluindo a AFP, o presidente brasileiro disse: “Também queremos propor um caminho para reduzir o uso de combustíveis fósseis”. Mas ele acrescentou: “Não é fácil”.
As palavras de Lula indicam interesse em “impulsionar politicamente” o assunto na COP, mas isso não significa que devamos esperar um consenso entre os 200 países, alertou quinta-feira fonte diplomática brasileira.
– “Linguagem do amor” –
As probabilidades de uma decisão formal hostil aos combustíveis fósseis são de facto percebidas como quase nulas em Belém, sendo o consenso obrigatório.
Mas a COP30 dará um lugar central aos compromissos voluntários dos países, o que também poderá levar a anúncios em torno do metano, o principal ingrediente do gás fóssil que escapa facilmente dos gasodutos e das instalações de gás.
Um “freio de emergência” contra os vazamentos de metano deve ser ativado, argumentou Mia Mottley, Primeira-Ministra de Barbados. “Seria vantajoso para todos porque fala a linguagem do amor do sector do petróleo e do gás, ao mesmo tempo que fala a linguagem do amor daqueles de nós que querem salvar o planeta.”
burs-ico/tmo/lpa