CARTA DE BUENOS AIRES
E de repente, nesta praça de Villa Bosch, nos subúrbios de Buenos Aires, à letargia noturna de um domingo de março é seguida por uma febre alegre. Sons graves inebriantes que emanam de baterias imponentes se misturam ao toque frenético dos pratos. “Nos encontramos novamente/todas as tristezas desaparecerão”entoam os cantores enquanto cerca de quinze dançarinos saltam e giram. “Que alegria estar aqui! Quando danço, voo para longe”confidencia Iara Romero, estudante de 19 anos, sem fôlego.
Lá murgaque designa tanto um gênero musical quanto um grupo tradicional – formado por percussionistas, cantores e dançarinos – tem seu destaque anual durante os desfiles carnavalescos, que pontuam todo o mês de fevereiro. Mas também vive o resto do tempo, através de numerosos ensaios e ligações sociais que vão muito além da sua dimensão artística e festiva. Numa Argentina maltratada e abalada por crises, simboliza a alegria apesar de tudo, a solidariedade, o poderoso vínculo intergeracional, a autogestão face a um Estado falido, ou mesmo a tradição da luta social.
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