Muitas vezes adiada, a reforma do fim da vida regressa terça-feira ao Parlamento com a apreciação no Senado de um projeto de lei que cria o direito à assistência na morte. O sistema levanta grandes reservas na Câmara Alta, dominada pela direita.
Os senadores apreciarão o texto no meio da tarde e debaterão esse delicado tema durante uma semana, antes da votação solene marcada para quarta-feira, 28 de janeiro, às 16h30.
De facto, dois textos são examinados em paralelo no Palais du Luxembourg: um, bastante consensual, sobre o desenvolvimento dos cuidados paliativos; e outra, muito mais delicada, que legaliza um sistema de suicídio assistido e de eutanásia, mesmo que estas palavras não estejam escritas a preto e branco.
Alimentados por inúmeras reflexões e trabalhos, foram amplamente adotados pela Assembleia Nacional na primavera de 2025, mas a instabilidade política dos últimos meses adiou a sua apreciação no Palácio do Luxemburgo.
Se for bem sucedida, a reforma sobre a morte assistida seria a mais importante no domínio social desde o estabelecimento do casamento para todos em 2012. A França juntar-se-ia a outros países que legislaram sobre a questão, como os Países Baixos, a Bélgica, a Suíça e o Canadá.
Forçado a dar um passo atrás na vida parlamentar e na política interna desde a dissolução, Emmanuel Macron conta com este debate para cumprir uma das promessas do seu segundo mandato de cinco anos.
– Longo caminho parlamentar –
Prometeu ir “até ao fim do trabalho legislativo” desta reforma este ano, o que exigirá mais algumas idas e vindas entre o Senado e a Assembleia Nacional, no final de uma maratona orçamental sem fim.
A análise do texto no Senado é, portanto, apenas um passo preliminar, mas permitirá medir a distância que separa as duas câmaras parlamentares.

As diferenças serão provavelmente significativas, porque o Senado, dominado por uma aliança entre a direita e os centristas, é mais do que reservado.
“Querem fazer-nos engolir uma das leis mais permissivas do mundo sobre a eutanásia, uma grande mudança antropológica, em detrimento do que já existe, nomeadamente os cuidados paliativos”, irrita a senadora Christine Bonfanti-Dossat (Les Républicains), responsável por liderar a análise do texto na Comissão dos Assuntos Sociais.
Muito otimista, a direita senatorial está, no entanto, na corda bamba: por um lado, o seu grupo está bastante dividido nestes assuntos íntimos; por outro lado, poderá ser completamente inútil no debate se o governo acabar por dar a última palavra à Assembleia Nacional.
Nesta fase, a sua estratégia consiste em defender uma revisão profunda do sistema com critérios muito restritivos e numerosas salvaguardas. Em comissão, o Senado transformou assim o direito à assistência à morte em “assistência médica à morte” reservada aos pacientes cujo prognóstico vital está comprometido “no curto prazo”.
Isto reduziria significativamente o espectro de pessoas elegíveis em comparação com a versão votada na Assembleia.
“Se não nos manifestarmos, se rejeitarmos o texto, deixamos de existir. O Senado tinha que se manifestar”, garante o senador Alain Milon (LR). “Acho que encontramos o caminho certo”, insiste.
– Debates imprevisíveis –
As divisões internas dentro dos grupos políticos tornam, no entanto, o destino deste texto no hemiciclo bastante imprevisível, especialmente porque a esquerda tentará esmagadoramente restabelecer a versão dos deputados.
“A direita esvaziou o texto da sua substância”, lamenta a senadora socialista Annie Le Houérou, acreditando que os senadores da LR “fingiram avançar” neste debate.
Os debates irão muito além dos muros do Palais du Luxembourg, reavivando a oposição entre associações e activistas de um campo e de outro, mas também as reivindicações dos sindicatos de cuidadores e de outros representantes de religiões, tendo estes últimos reiterado publicamente a sua hostilidade.
Vários milhares de opositores também se manifestaram no domingo em Paris como parte da “marcha pela vida”.
A associação Les Eligibles, que reúne pessoas com deficiência, teme “desvios” devido a critérios de acesso considerados “confusos e extensíveis”.