O físico Alain Brillet morreu em 20 de março, poucos dias antes de completar 79 anos. O cientista, medalhista de ouro do CNRS em 2017, foi o arquiteto na Europa da construção de um dos mais extraordinários instrumentos astrofísicos, o Virgo, instalado em Cascina, perto de Pisa, na Itália.
Virgem é capaz de detectar pequenos tremores no espaço-tempo, produzidos pelo movimento rápido e distante de objetos grandes, como buracos negros ou estrelas de nêutrons. Tal como as ondas criadas pela queda de uma pedra na água, as chamadas ondas gravitacionais são produzidas pela fusão entre dois buracos negros gigantes, dezenas de vezes mais massivos que o Sol. Eles distorcem o espaço-tempo até a Terra, a ponto de variar o tamanho dos dois “braços” de 3 quilômetros desta máquina em apenas alguns bilionésimos de bilionésimos de metro. O equivalente a alterar a distância Terra-Lua em menos que o diâmetro de um átomo.
“Durante muito tempo fomos considerados loucos”Alain Brillet declarou frequentemente relatar as dificuldades que teve em convencer os seus próprios colegas da viabilidade do projecto. Este especialista em metrologia e óptica manteve-se firme face ao cepticismo, não sem humor, já que o nome Virgem, proposto em referência ao aglomerado de galáxias de Virgem, região propícia à emissão de ondas gravitacionais, também significava para ele “Observatório Rádio-Gravitacional Muito Improvável”.
Este engenheiro, formado pela Escola Superior de Física e Química Industrial (ESPCI) de Paris em 1970, hesitou em se tornar químico, optando finalmente pela física, nomeadamente graças ao curso do vencedor do Prémio Nobel de 1997, Claude Cohen-Tannoudji. Ingressou no CNRS em 1970, como engenheiro, no laboratório de relógios atômicos de Orsay. Após a tese, em 1976, partiu para o laboratório do futuro ganhador do Prêmio Nobel (2005) John Hall, nos Estados Unidos, que decidiu embarcar em um projeto de detecção de ondas gravitacionais chamado LIGO [Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory]. No local, Alain Brillet demonstra sua excelência no campo da interferometria laser, a arte de fazer os feixes de luz interagirem entre si, a técnica que está no centro do futuro LIGO e Virgo.
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