Milhares de glaciares desaparecerão todos os anos nas próximas décadas e apenas uma fracção poderá sobreviver até ao final do século, a menos que o aquecimento global seja controlado, afirma um estudo publicado esta segunda-feira.

As ações governamentais em matéria de alterações climáticas poderão determinar se o mundo perderá 2.000 ou 4.000 glaciares por ano até meados do século, de acordo com este estudo publicado na revista Nature Climate Change e liderado pelo glaciologista Lander Van Tricht.

Alguns graus poderiam fazer a diferença entre preservar quase metade das geleiras do mundo em 2100 e menos de 10%.

“Os nossos resultados sublinham a urgência de uma política climática ambiciosa”, está escrito neste estudo.

Os pesquisadores normalmente se concentram na perda de massa e área dos gigantes de gelo do mundo, mas Van Tricht e seus colegas procuraram determinar quantas geleiras individuais poderiam derreter a cada ano neste século.

– Turismo, cultura local –

Se o derretimento dos pequenos glaciares tiver menos impacto na subida do nível do mar do que o dos grandes glaciares, o seu desaparecimento pode prejudicar significativamente o turismo ou a cultura local, segundo os cientistas envolvidos neste estudo.

“O desaparecimento de cada glaciar individual pode ter repercussões locais significativas, mesmo que a sua contribuição para o degelo da água seja pequena”, disse Van Tricht, especialista em glaciologia do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Zurique (ETH), durante uma conversa com a imprensa.

“A perda das geleiras de que estamos falando aqui é mais do que apenas uma preocupação científica. Ela realmente toca nossos corações”, disse Matthias Huss, coautor do estudo e também glaciologista da ETH, que em 2019 participou de um funeral simbólico da geleira Pizol, nos Alpes suíços.

Os cientistas examinaram os contornos de 211.490 geleiras a partir de um banco de dados global de satélites para determinar o ano em que o maior número delas desaparecerá, um conceito que chamaram de “pico de extinção das geleiras”.

Utilizando modelos informáticos que avaliam vários cenários de aquecimento que variam entre 1,5°C e 4°C em comparação com os níveis pré-industriais, concluíram que se espera que a actual taxa de perda de 1.000 glaciares a cada ano acelere.

Isto atingiria um pico de 2.000 até 2041, mesmo que o aquecimento fosse limitado a 1,5°C, o limite a que os países se comprometeram no âmbito do Acordo de Paris para evitar os piores efeitos das alterações climáticas, embora as Nações Unidas tenham alertado que se espera que o aquecimento exceda este nível nos próximos anos.

Nesse ritmo, restariam apenas 95.957 geleiras no planeta até 2100, ou um pouco menos da metade.

– Pior cenário –

De acordo com as actuais projecções de que as temperaturas aumentariam 2,7°C, cerca de 3.000 glaciares desapareceriam todos os anos entre 2040 e 2060, segundo glaciologistas.

E em 2100, apenas um em cada cinco glaciares, ou 43.852, teria sobrevivido num mundo onde a temperatura aumentou 2,7°C.

No pior cenário, com um aumento das temperaturas de 4°C, até 4.000 glaciares desapareceriam todos os anos até meados da década de 2050. E apenas 9% dos glaciares, ou 18.288, permaneceriam no final do século, indica o estudo.

O momento em que a perda de geleiras atingirá o pico varia de acordo com a região, dependendo do tamanho e localização. Em áreas onde os glaciares são maioritariamente pequenos, como os Alpes subtropicais e os Andes, metade poderá desaparecer dentro de duas décadas.

Em áreas do mundo com glaciares maiores, como a Gronelândia e os arredores da Antártida, o pico do desaparecimento dos glaciares ocorrerá no final do século.

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