Bico de pato, cauda de castor, patas de lontra… e agora reservatórios de melanina normalmente reservados aos pássaros: o ornitorrinco nunca deixa de surpreender os cientistas.
Quando um espécime empalhado foi trazido da Austrália pela primeira vez em 1799, os naturalistas europeus começaram a procurar as costuras.
Diante da aparência bastante improvável do animal, eles se convenceram de que se tratava de uma farsa de taxidermista.
Mas o ornitorrinco era muito real e reservava outras surpresas para os biólogos.
Este pequeno animal, endêmico da costa leste da Austrália e da Tasmânia, é um dos cinco representantes no mundo da ordem dos monotremados, os únicos mamíferos que põem ovos. As outras quatro são espécies de equidnas, outra criaturinha tipicamente australiana.
É também um dos únicos mamíferos venenosos, o macho carrega uma picada nas patas traseiras que pode liberar veneno.
Outra estranheza acrescenta-se agora a este inventário de Prévert, escondido na sua melanina, como revela um estudo publicado quarta-feira na Biology Letters da British Royal Society.
– Iridescência –
Nos vertebrados, esses pigmentos protegem contra os raios UV, contribuem para a regulação térmica e são responsáveis pela cor da pele, dos cabelos e das penas.
Eles estão contidos em pequenas estruturas especializadas dentro das células chamadas melanossomas, cuja forma se correlaciona fortemente com a cor.

A eumelanina, que dá tons de preto, cinza e marrom escuro, é geralmente encontrada em melanossomas alongados. A feomelanina, que gera vermelho, vermelho e certos tons de laranja/amarelo, está contida em melanossomas esféricos.
Além disso, nos mamíferos estes melanossomas estão sempre cheios.
Ao contrário das aves, em que alguns melanossomas alongados podem ser ocos ou achatados, apenas envoltos por uma fina camada de melanina, o que melhora a sua capacidade de produzir diferentes gamas de cores. Organizados em nanoestruturas, eles produzem principalmente cores iridescentes, que interagem com a luz, como penas de pavão.
Foi construindo um banco de dados sobre esses melanossomas em mamíferos que os pesquisadores fizeram uma descoberta “extremamente surpreendente e emocionante”, disse à AFP Jessica Leigh Dobson, bióloga da Universidade de Ghent (Bélgica) e primeira autora do estudo.
Os melanossomas do ornitorrinco são em sua maioria esféricos, o que logicamente deveria dar ao animal pelos vermelhos/alaranjados. Mas o ornitorrinco é marrom escuro.
Acima de tudo, alguns de seus melanossomas são ocos como os dos pássaros.
“Também verificamos muitos outros mamíferos (…): equidnas, marsupiais, roedores, carnívoros, primatas e muitos outros. Até onde sabemos, este é o único exemplo de melanossomas ocos em mamíferos”, diz a Sra. Dobson.
Distribuídos “aleatoriamente no córtex do cabelo”, não produzem qualquer iridescência, e “serão claramente necessárias pesquisas adicionais para compreender a razão da sua presença”, acredita o investigador.
A questão de sua origem também está em aberto.
Os ancestrais do ornitorrinco e das equidnas provavelmente eram animais aquáticos escavadores, e os melanossomas ocos podem ter sido uma adaptação a um estilo de vida aquático, melhorando o isolamento térmico.
“Como as equidnas modernas agora são terrestres, essa transição poderia ter levado à perda de melanossomas ocos nelas, enquanto teriam permanecido no ornitorrinco, que ainda é semiaquático”, diz a Sra.
Uma hipótese que, no entanto, levanta uma questão adicional, conclui o estudo: se for esse o caso, “por que esta característica não é mais difundida entre os mamíferos aquáticos?”