Considerado “muito eficaz” na proteção dos golfinhos, o mês sem pesca no Golfo da Biscaia é renovado na quinta-feira pelo terceiro ano consecutivo, e talvez não pela última vez, por falta de alternativa.

Do extremo de Finistère à costa basca, pouco menos de 300 barcos com mais de 8 metros permanecerão atracados até 20 de fevereiro, beneficiando de uma compensação governamental de 80% do seu volume de negócios.

“Deixamo-nos adormecer pela compensação. Há uma forma de resignação”, disse Thomas Le Gall, pescador em Audierne (Finistère) e presidente da associação Pêche Avenir Cap Sizun, expressando à AFP um “forte sentimento de incerteza e ansiedade” por parte dos seus colegas pescadores.

No Inverno passado, 274 navios foram compensados ​​no valor de 14,5 milhões de euros pelo seu défice, estimado em 4.320 toneladas de peixe. Incluindo cerca de quarenta empresas de comércio de pescado, a compensação total atingiu os 20 milhões de euros.

Le Gall teme que este mês de encerramento, inicialmente previsto para três anos, seja prolongado até 2027 e mais além.

Porque, evitando 60% das capturas acidentais, o mês sem pesca tem o mérito de ser “muito eficaz” na proteção dos cetáceos, segundo pessoas próximas da ministra do Mar, Catherine Chabaud, em novembro.

Segundo dados do observatório Pelagis (CNRS/Universidade de La Rochelle), 1.900 golfinhos-comuns morreram por captura acidental entre 1 de dezembro de 2024 e 31 de março de 2025 na costa atlântica e no Canal da Mancha Ocidental, em comparação com 4.700 em média por inverno entre 2017 e 2023.

– “Não é uma solução a longo prazo” –

No entanto, o ministério, questionado pela AFP, recusa comentar um novo encerramento no próximo ano, lembrando simplesmente que esta medida “não era uma solução a longo prazo”.

“O governo obviamente quer a reabertura do Golfo da Biscaia, só para que isso aconteça será necessário poder recolher os dados desta época, contando também com as conclusões formuladas pelo Conselho de Estado”, declarou quarta-feira no Senado o Ministro Delegado responsável pela Transição Ecológica, Mathieu Lefèvre.

Um membro da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS) exibe o corpo de um golfinho encalhado durante uma manifestação contra a captura acidental de cetáceos no Golfo da Biscaia, em 14 de janeiro de 2020, na esplanada do Trocadéro, em Paris (AFP/Arquivos - BERTRAND GUAY)
Um membro da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS) exibe o corpo de um golfinho encalhado durante uma manifestação contra a captura acidental de cetáceos no Golfo da Biscaia, em 14 de janeiro de 2020, na esplanada do Trocadéro, em Paris (AFP/Arquivos – BERTRAND GUAY)

A Comissão Europeia, por seu lado, reiterou o seu apego “à proteção das espécies sensíveis”, consagrado na legislação europeia. “Os esforços para reduzir a captura acidental de golfinhos comuns devem continuar”, disse ela à AFP.

Baseando-se nesta mesma legislação europeia, as ONG Sea Shepherd e Defesa dos Ambientes Aquáticos interpuseram recurso nos tribunais administrativos em Dezembro para solicitar a prorrogação do sistema de encerramento.

“Os prazos do litígio perante o Conselho de Estado são muito longos”, disse à AFP o advogado Manon Crécent, confirmando informações do diário Ouest-France. O advogado espera uma decisão antes de janeiro de 2027.

Argumentando que “o pico de mortalidade (de golfinhos) está a mudar”, as associações apelam a uma extensão do encerramento para três meses no inverno e um mês no verão, acrescentou.

“O governo opõe-se a prolongar os períodos de encerramento”, assegurou Lefèvre.

– Nenhuma solução técnica perfeita –

Foi na sequência de duas decisões do Conselho de Estado, proferidas em 2023, que o mês sem pesca viu a luz do dia pela primeira vez no ano seguinte.

Desde então, muitos pescadores equiparam-se com repelentes acústicos (pingers), balizas nas suas redes e câmaras de bordo, mas ainda não surgiu nenhuma solução técnica perfeita, apesar das inúmeras experiências em curso.

Golfinhos na costa de La Turballe, no Loire-Atlantique, 28 de setembro de 2018 (AFP/Arquivos - SEBASTIEN SALOM GOMIS)
Golfinhos na costa de La Turballe, no Loire-Atlantique, 28 de setembro de 2018 (AFP/Arquivos – SEBASTIEN SALOM GOMIS)

“Este terceiro encerramento não pode nem deve tornar-se uma norma”, alerta a Comissão Nacional de Pescas num comunicado de imprensa, apelando à “abertura de uma nova fase, baseada na avaliação das medidas implementadas e na implantação de soluções alternativas sustentáveis”.

Em Lorient, o pescador David Le Quintrec acusa o governo de “não defender os seus pescadores”. “Teremos que bater os punhos na mesa!” troveja Le Quintrec, também presidente do Sindicato Francês dos Pescadores Artesanais (UFPA), dizendo lamentar a falta de visibilidade da profissão, entre meses sem pesca, queda nas cotas e aumento dos custos.

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